Santa Ana chega com seu novo álbum, ‘Vagío del 62’, trazendo o que sabe fazer de melhor: uma mistura visceral de pop rock, indie e atmosferas eletronicas melancólicas, com sintetizadores e orquestração que refletem sua trajetória underground e independente. O disco de 10 faixas mergulha na poesia romântica, na música emocionalmente intensa, voltada para a audição atenta, e não para ser ouvida como música de fundo, aproveitando experiências pessoais para criar uma coleção profundamente ressonante de músicas. E este álbum é mais um passo firme na jornada sonora de Santa Ana, que adiciona um toque pessoal a cada faixa, explorando o conceitual da jornada humana, tornando este álbum imperdível para os entusiastas da música.
Por trás do pseudônimo está Marta Franco, que constrói uma narrativa sobre nascimento, maternidade, julgamento social e autonomia feminina, utilizando as mudanças de sonoridade como parte do desenvolvimento da personagem. O rock andaluz e o flamenco aparecem ao lado de guitarras psicodélicas, sintetizadores e passagens próximas do dream pop, sem que a mistura pareça uma simples coleção de referências. A produção também permite que os momentos mais delicados convivam com trechos de maior peso, característica importante para um álbum que precisa equilibrar intimidade e enfrentamento.
A abertura com a apropriada “La BIENVENIDA” apresenta o nascimento da personagem central, mas está longe de representar uma chegada idealizada. Uma guitarra psicodélica conduz a composição, acompanhada por sintetizadores que criam uma atmosfera entre o dream pop e o rock alternativo. Com apenas 1min13s, funciona como uma introdução ao universo do álbum e à história que será desenvolvida nas músicas seguintes.
Seguindo com “fruto de mis ENTRAÑAS (una nana)”, a música assume a forma de uma canção de ninar, mas sua delicadeza esconde uma preocupação maior. A voz de Marta começa em primeiro plano e recebe o acompanhamento gradual de guitarras e sintetizadores. As harmonias vocais ganham corpo ao longo da música, que cresce até uma conclusão mais intensa. A maternidade aparece aqui não apenas como demonstração de afeto, mas também como transmissão de experiências e receios de uma geração para outra.
O disco tem variações de sentimento, cmo em “NIÑA GRITANDO AL CIELO”, onde a inocência da infância começa a dar lugar à indignação. O título apresenta a imagem de uma menina que grita em direção ao céu, gesto que representa o primeiro confronto com as regras de um mundo que distribui liberdades e responsabilidades de maneira desigual. É uma passagem importante na narrativa, pois marca o momento em que a personagem deixa de apenas receber o que lhe é apresentado e começa a questionar seu lugar na sociedade. Aqui a sonoridade ganha mais peso, com riffs de guitarras pesados que remetem ao rock alternativo e melodia mais potente – é a faixa que mais gostei.
Em “Rosa y Clavos” a contradição entre beleza e sofrimento está no próprio título. A rosa representa uma imagem tradicionalmente associada à feminilidade, enquanto os cravos introduzem a ideia de ferida e desconforto. A música aborda as expectativas impostas às mulheres e o julgamento que acompanha aquelas que não aceitam os papéis determinados para elas. O instrumental é mágico, e passa uma sensação de euforia, clamor e é totalmente teatral e cinematográfico- lembra muito tons de Rosalia.
Um dos momentos mais intensos do disco é na faixa “sobre su VIENTRE”, com composição assume um caráter mais sombrio, com uma base de rock que ganha peso à medida que a interpretação vocal de Marta se torna mais incisiva. Guitarras distorcidas e sintetizadores ampliam a tensão, especialmente na segunda metade. A letra coloca o corpo feminino no centro da discussão, tratando da autonomia e do direito de decidir sobre a própria vida. É quando o discurso de ‘Vagío del 62’ adquire seu contorno político mais evidente.
Já “LA SENTENCIA” tem menos de dois minutos, a faixa funciona como prelúdio, um divisor de águas. Seu título remete a um julgamento, mas a questão principal está em quem tem o direito de estabelecer as regras. Depois de acompanhar uma personagem submetida às expectativas externas, a história chega ao momento em que ela começa a tomar suas próprias decisões.
Em “Atentamente, ELLA”, o formato de uma carta serve como ponto de partida para uma das passagens mais importantes do conceito. A personagem começa a estabelecer limites e a reivindicar espaço, deixando para trás a obrigação de estar sempre disponível para atender às expectativas alheias. É o momento em que a protagonista começa a falar por si mesma, cm riffs de guitarras e melodia mais roqueira.
Em contraste à faixa anterior, “Atentamente, ÉL” é a resposta masculina. Em vez de repetir o mesmo ponto de vista, Santa Ana apresenta outra perspectiva sobre os conflitos que atravessam a narrativa. Musicalmente, a composição alterna passagens mais abertas, próximas do pop, com movimentos de rock progressivo. Os vocais ganham um caráter quase fantasmagórico no encerramento, criando uma das atmosferas mais particulares do álbum.
Preparando para os ritos finais, “Expiación” traz a ideia de penitência e purificação, conceitos historicamente associados à culpa e à religião. Dentro da narrativa, a palavra ganha um sentido provocativo: por que uma mulher deveria se desculpar por exercer sua liberdade? Com apenas 1min42s, a faixa tem função de passagem para o encerramento e concentra uma das questões fundamentais do trabalho. A culpa deixa de ser tratada como algo natural e passa a ser questionada como uma imposição social. O tom mais folk pop é muito suave e gostoso de ouvir,
O encerramento com “La PARTIDA (réquiem)” reúne os principais temas do álbum em uma composição de pouco mais de oito minutos. A palavra réquiem poderia sugerir uma despedida trágica, mas a conclusão aponta para outro significado: a morte simbólica de tudo aquilo que a protagonista foi ensinada a carregar. A saída não representa o desaparecimento da personagem, mas sua libertação de obrigações e culpas que nunca deveriam ter definido sua existência. A duração permite que a composição se desenvolva com mais espaço, encerrando a narrativa sem recorrer a uma resolução apressada.
‘Vagío del 62’ é uma obra de arte contemporânea, onde até a língua espanhola faz sentido nesse disco. A produção também permite que os momentos mais delicados convivam com trechos de maior peso, característica importante para um álbum que precisa equilibrar intimidade e enfrentamento. Há uma ambição considerável para uma estreia, e algumas passagens conceituais podem exigir mais atenção do ouvinte, mas a história encontra uma conclusão coerente. Depois de anos afastada dos palcos e de um processo de composição iniciado entre 2021 e 2022, Marta Franco apresenta como Santa Ana um trabalho que tem tanto de reencontro artístico quanto de posicionamento pessoal.