Um dos nomes mais sólidos e respeitados do death metal europeu, a banda britânica Benediction retorna ao Brasil para divulgar seu álbum mais recente e aclamado, “Ravage of Empires” (2025). Com mais de 35 anos de carreira, o grupo segue reafirmando sua relevância dentro do gênero, mantendo a agressividade e a consistência que o consagraram desde o final dos anos 1980.
Formado em 1989, o Benediction construiu uma discografia marcada por lançamentos considerados fundamentais para a história do death metal. Nos últimos anos, a banda vive uma fase especialmente produtiva, evidenciada pelo álbum “Scriptures” (2020), que marcou um retorno vigoroso às raízes do estilo, e por “Ravage of Empires” (2025), trabalho que recebeu reconhecimento da crítica especializada e reforça a identidade sonora pesada e direta do grupo.
A formação atual reúne nomes históricos e novos integrantes: permanecem na banda dois membros fundadores, os guitarristas Peter Rewinsky (Rewy) e Darren Brookes. O vocalista Dave Ingram afastou-se temporariamente por problemas de saúde, abrindo espaço para uma participação mais do que especial na turnê sul-americana: Kam Lee (vocalista do Massacre e ex-Mantas/Death), uma lenda viva do estilo. A cozinha da banda segue forte com o baixista Nik Sampson e o baterista Giovanni Durst.
Em São Paulo, o show acontece na casa Burning House. Para esquentar os motores antes dessa verdadeira celebração ao metal extremo, conversei com o guitarrista e fundador Peter Rewinsky sobre a troca temporária nos vocais, o processo de composição, a rejeição aos blast beats e o que os fãs brasileiros podem esperar desta nova passagem pelo país.

Foto: Carlos Pupo/Headbangers News
Confira a entrevista na íntegra:
Headbangers News: É muito interessante conversar com você, já que você está no Benediction desde o início. A banda teve trocas de vocalistas no passado — eu mesmo conheci vocês na época do Grind Bastard. Agora vocês passam por uma nova mudança temporária para a turnê no Brasil, pois o membro original não pôde vir. Como é lidar com essa dinâmica de trocas de vocalistas no Benediction?
Peter Rewinsky: Em primeiro lugar, é realmente difícil manter uma banda rodando por tanto tempo com a mesma formação. É sempre complicado. As pessoas têm suas vidas, coisas acontecem, mas você tem que seguir em frente. Se você sente que ainda tem mais a oferecer e sabe que há pessoas querendo entrar na banda, isso acaba trazendo uma nova dimensão. Estar em uma banda e se comprometer com isso por tanto tempo é algo gigantesco. Não é uma sentença de prisão; as pessoas podem vir e ir se quiserem. Para nós, o Benediction é sobre se divertir. Se deixar de ser divertido para alguém, por qualquer motivo, cabe a essa pessoa seguir em frente. Continuamos fortes e ainda temos muito a oferecer. Mudanças acontecem e não há o que fazer, mas eu e o Darren estamos aqui desde o primeiro dia, então o coração pulsante da banda sempre esteve presente.
Headbangers News: Mesmo com essas trocas ao longo dos anos, o Benediction nunca perdeu sua essência. Cada álbum parece uma aula de death metal. Como vocês conseguem manter essa consistência e a mesma identidade sonora enquanto o tempo e a indústria musical mudam tanto?
Peter Rewinsky: Para começar, nós nunca mudamos e nunca fizemos concessões. Já passamos por períodos difíceis em que não éramos populares, tocávamos em shows onde quase ninguém aparecia, mas continuamos. Depois vem um resurgimento, as coisas melhoram, e assim por diante. Sem complicar demais: nós mantemos os ideais de quando começamos. Lembramos do que queríamos tocar e fazer no início e deixamos isso na linha de frente, sem perder de vista. Acho que muitas bandas se perdem com o estrelato ou com o que acham que deveriam fazer e esquecem o objetivo original. Nós só queríamos tocar um bom metal e nos divertir fazendo isso. É quase um “metal orgânico”, por assim dizer.
Headbangers News: Eu adorei o Ravage of Empires, ele traz muito daquele Benediction que eu amo. Você acha que vocês trouxeram algo novo para este trabalho ou ele é simplesmente a continuidade do que o Benediction sempre foi proposto a ser?
Peter Rewinsky: Eu gosto de pensar que simplesmente tentamos ser a melhor versão de nós mesmos, a melhor versão do Benediction. Quando me sento para compor, não fico pensando: “Ah, vou escrever a música mais rápida de todas” ou algo assim. Eu apenas pego a guitarra e vejo o que sai naturalmente. A partir daí, a música evolui. Eu e o Darren sempre compomos juntos; empurramos um ao outro e pegamos detalhes que o outro talvez não percebesse. É uma ótima parceria que vem funcionando há todos esses anos e continua funcionando.

Foto: Carlos Pupo/Headbangers News
Headbangers News: A América Latina ama vocês. Na última vez no Brasil, vocês tocaram no festival Summer Breeze. Como é manter essa paixão e emoção no palco após tantos anos na estrada?
Peter Rewinsky: É tudo sobre o que você quer tirar disso e se você ainda sente prazer. Para mim, subir ao palco, ouvir a intro tocar, mandar a primeira música e ver a reação do público é o que faz tudo valer a pena. Nós nos alimentamos da energia da galera. Se o público está curtindo, isso nos estimula a dar o nosso melhor. Sobre o Summer Breeze, foi há uns três anos, e eu sei que muitos fãs não puderam ir porque era um festival grande e caro. Por isso, nesta turnê, fizemos questão de adicionar mais datas no Brasil em casas menores e mais intimistas, para dar a oportunidade de todos nos verem.
Headbangers News: E em casas fechadas o som também costuma ser bem mais pesado e definido!
Peter Rewinsky: Com certeza! Como será em locais fechados, o som vai soar muito melhor. Vai ser ótimo, estamos muito ansiosos!
Headbangers News: Como vocês fazem para escolher o setlist com uma discografia tão vasta?
Peter Rewinsky: Todo mundo tem sua música favorita e quer ouvir algo específico. Como esta é a turnê do Ravage of Empires, vamos tocar bastante coisa desse álbum novo e várias do Scriptures, porque é muito legal para nós tocar sons mais recentes. Claro que haverá clássicos antigos, e talvez uma surpresa ou duas… quem sabe até uma música do Massacre, agora que o Kam Lee está conosco? Teremos que esperar para ver!
Headbangers News: Tocar esses clássicos antigos com o Kam Lee nos vocais deve trazer um frescor especial para essas músicas, não?
Peter Rewinsky: Sim! Ter o Kam cantando os velhos clássicos renova as músicas, é como uma versão totalmente nova e muito interessante. Mas, sabe, a primeira música que compusemos na vida foi Subconscious Terror, e praticamente temos que tocá-la em todo show. Para ser honesto, depois de todos esses anos, fica um pouco cansativo para nós, mas se os fãs estão curtindo, eu também curto!
Headbangers News: É sensacional ver a parceria entre você e o Darren nas guitarras. Como é o processo de composição de vocês hoje em dia em comparação ao passado?
Peter Rewinsky: Mudou bastante. Antigamente, passávamos horas e dias num estúdio de ensaio num porão, em volta de um gravador com um microfone. Hoje, com os computadores, fazemos tudo à distância. Eu gravo algo no computador, mando para ele, ele desenvolve mais um pouco e me devolve. Depois mandamos para o vocalista colocar as linhas dele. A tecnologia facilitou muito, mas a base continua a mesma: sentar com a guitarra e ver o que nasce.
Headbangers News: Você ainda costuma praticar guitarra por muitas horas diariamente?
Peter Rewinsky: Eu tenho uma guitarra ao lado da minha cama e outra na cozinha, que é onde estou agora. Se me dá vontade de tocar, eu simplesmente pego e toco. Quando chega a época de compor, eu me dedico um pouco mais, mas no geral é quando dá na telha.
Headbangers News: Qual foi o lugar mais inusitado onde você já compôs um riff ou uma música?
Peter Rewinsky: Na maior parte do tempo estou na cozinha compondo! Mas isso acontece a qualquer momento: às vezes estamos no estúdio gravando um álbum e de repente alguém solta algo e mudamos a música ali mesmo, ou até ouvindo um jingle na TV que me dá uma estalo de inspiração. Qualquer coisa pode acender essa faísca.
Headbangers News: O death metal moderno costuma ser ultra técnico, cheio de ritmos e variações que às vezes fazem o ouvinte se perder na música. O Benediction, por outro lado, mantém aquela simplicidade e peso direto das origens. O que você pensa sobre essa evolução do estilo?
Peter Rewinsky: Cada um tem seu lugar na música e não quero criticar ninguém, mas, na minha opinião, blast beats não são death metal; blast beats pertencem ao grindcore. Quem faz blast beats, beleza, não estou falando mal, mas não é para o Benediction. Nós estamos aqui para escrever riffs marcantes, com groove e marcantes, dentro do estilo death metal. Queremos criar um metal de classe que grude na cabeça das pessoas.
Headbangers News: Para as bandas novas do underground que tentam fazer esse death metal mais tradicional e encontram dificuldades perante a onda do death metal técnico, qual conselho você daria?
Peter Rewinsky: É difícil, realmente muito difícil. Pode ser uma questão de sorte, mas se você trabalhar duro e acreditar no que está fazendo, as oportunidades aparecem. O mercado atual está inundado de death metal técnico e rápido — parece ser a moda do momento. Mas ironicamente isso funciona a nosso favor, porque não há muitas bandas que soem como nós hoje em dia!
Headbangers News: Para encerrar, qual é a sua mensagem para os fãs brasileiros que estão ansiosos por esses shows?
Peter Rewinsky: Esta vai ser uma ocasião extremamente especial. Vamos tocar em casas menores, em locais fechados, o que garante um show mais longo, um som pesado e devastador. E teremos o Kam Lee à frente da banda, o que é algo incrível, pois ele é um dos vocalistas originais da história do death metal. Se você gosta do verdadeiro death metal old school, esses shows são imperdíveis. Nos vemos lá!

Benediction em São Paulo
Data: 31 de outubro de 2026 (sábado)
Horário: 18h
Local: Burning House
Endereço: Avenida Santa Marina, 247, Água Branca, São Paulo/SP
Ingressos: https://101tickets.com.br/events/details/Benediction-em-Sao-Paulo
Valores:
Pista, 3º lote, meia-entrada ou promocional mediante doação de 1 kg de alimento: R$ 180
Pista, 3º lote, inteira: R$ 360
Camarote, 2º lote, meia-entrada ou promocional mediante doação de 1 kg de alimento: R$ 250
Camarote, 2º lote, inteira: R$ 500
Os valores estão sujeitos a alterações e à cobrança de taxas.