Há 40 anos, em 25 de junho de 1986, o Titãs lançava “Cabeça Dinossauro”, o terceiro disco e provavelmente o mais icônico da carreira do então septeto, que iniciava uma fase gloriosa, perdurando até o ano de 1993 com o não menos maravilhoso “Titanomaquia” e que é tema do nosso Memory Remains desta quinta-feira.
Eles estavam na berlinda: era o terceiro e último álbum sob contrato com a Warner, sendo que as expectativas de renovação eram bem pequenas, uma vez que os dois primeiros álbuns não venderam como esperado e eles sabiam que precisavam ir para “ou vai ou racha”. Em caso de fracasso, o contrato não seria renovado e a banda seria só mais uma dentre tantas que tentaram emplacar.
Colocando uma dose extra de dramaticidade: Tony Belloto e Arnaldo Antunes foram presos no final de 1985 por porte de heroína, com o último sendo condenado a três anos de prisão. Nando Reis conta em seu canal no YouTube que este episódio fez com que praticamente todos abandonassem a banda. Programas televisivos cancelaram participações, os shows tornaram-se raros e quando aconteciam, poucos eram os que se dispunham a testemunhar. Eram tempos complicados.
Antes destes acontecimentos, Branco Mello havia confidencial ao jornal O Estado de São Paulo, que o novo álbum seria mais cru, mais visceral, com um Rock mais seco e direto. Tony Belloto certa vez falou sobre como essa sonoridade já era presente nos shows. Aspas para o guitarrista:
“O tempo mostrou que essa vertente estava no nosso DNA, por isso o ‘Cabeça’ é uma grande marca, com toda a coisa do questionamento, com a crítica que a gente vê nas letras, com o punk, mas também o reggae, o funk. Acho que nesse disco a gente achou o caminho”.
Charles Gavin, na época o baterista, também enumerou alguns fatores que colaboraram para que o aniversariante do dia tivesse se tornado tão emblemático: vamos acompanhar as palavras do cara.
“Havia o momento do Brasil que estava se desenhando muito problemático, uma ditadura militar ainda se desmanchando, a morte de Tancredo. O clima era de desilusão, um cenário de distopia. E havia também nosso momento como banda. Tínhamos vindo de “Televisão”, nosso segundo disco, incompreendido pela gravadora (Warner), que não foi bem trabalhado. Isso nos provocou certo dissabor, ceticismo com a música, a carreira. Chegamos ao disco com raiva do mercado, da gravadora, de todo mundo.”
“Cabeça Dinossauro” marca o início da parceria entre a banda e o produtor Liminha, ex-baixista do Mutantes e produtor com certo renome naquela altura. Este era diretor da Warner e isso facilitou o contato entre banda e produtor. Eles trabalharam juntos nos dois álbuns posteriores, “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” (1987) e “Õ Blésq Blom” (1989). Ele seria também o produtor de “Tudo ao Mesmo Tempo Agora” (1991), mas como estava nos Estados Unidos e não conseguia retornar, a parceria acabou e isso estremeceu a amizade cultivada durante os anos. Mas o início foi um tanto quanto conturbado, o produtor sugeriu mudanças, principalmente em músicas como “Homem Primata” (que chegou inclusive a ser cogitada como o título do play) e “O Quê?“, e os membros da banda oferecerem uma resistência forte de início. Mas o tempo mostrou que Liminha estava certo.
Eles pegaram a ponte aérea e desembarcaram no Rio de Janeiro, no estúdio Nas Nuvens, para as gravações, que perfuraram entre os meses de março e abril de 1986. Antes disso, eles gravaram uma demo em um estúdio no bairro do Pompéia, em São Paulo. A música “AAUU” foi a primeira a ser gravada e ela já era conhecida do público, pois eles costumavam executá-la nas apresentações ao vivo, bem como “Bichos Escrotos“, escrita ainda no início dos anos 1980.
Para a capa, eles buscaram inspiração em ninguém menos que Leonardo Da Vinci. A pintura chamada “A Expressão de um Homem Urrando” foi utilizada como imagem frontal e na contracapa, a pintura “Cabeça Grotesca“. Em 2006, Sérgio Britto revelou que as primeiras trinta mil cópias foram prensadas em um papel fosco, cuja qualidade era maior e encarecia o produto final. Ele reitera também todo o apoio incondicional dado por André Midani, então presidente da Warner, que segundo Sérgio, “atendia a quase tudo que nós pedíamos”. Era também a primeira capa de disco das chamadas bandas do “Rock Brasil” a não contar com a foto da banda estampada. Bem, vamos colocar a bolacha para rolar porque aqui só tem clássico.
Dando play na bolacha, temos um grande clássico, com músicas arrebatadoras. A faixa-título, “AAUU“, “Igreja“, “Polícia“, “Estado Violência“, “Porrada“, “A Face do Destruidor“, “Tô Cansado“, “Bichos Escrotos“, e até outras não tão Rock como “Família“, “Homem Primata“, “Dívidas” e “O Quê?“. O álbum é um grande tesouro do Rock nacional, em uma época que a nossa sociedade começava a se livrar das marcas deixadas pela ditadura que perdurou por 21 anos calando e matando seus opositores. E olha que em pleno século XXI, ainda tem gente que apoia certos políticos que defendem um sistema tão nefasto quanto este que manchou a história do nosso país.
Treze músicas em menos de 39 minutos e a sensação é de que um rolo compressor passou por sobre nossas cabeças. Era o início da redenção da banda e da fase áurea, que duraria até o não menos maravilhoso “Titanomaquia” (1993), onde eles experimentaram uma sonoridade ainda mais pesada. “Cabeça Dinossauro” rendeu o primeiro Disco de Ouro da banda. Na época, Tony Belloto apostou (e perdeu) uma garrafa de Whisky com Branco Mello, que o disco não venderia nem cem mil cópias, o que basta para que um artista ser certificado com Disco de Ouro no Brasil.
O aniversariante do dia também foi eleito o 19° melhor disco da história da música brasileira. No ano de 2012, os ouvintes da Rádio Eldorado, pertencente ao grupo que controla o jornal “O Estado de São Paulo”, colocaram o disco como o 7° melhor disco brasileiro da história. Os caras do Sepultura nunca esconderam a admiração pelo álbum. Em 1987, eles abriram um show para o Titãs em Belo Horizonte, onde reiteraram a devoção ao álbum e disseram que esperavam ter o mesmo sucesso dos paulistanos. Andreas Kisser inclusive, disse que o álbum “Beneath the Remains” (1989) foi gravado no mesmo estúdio que “Cabeça Dinossauro” para que eles conseguissem captar a mesma energia que o Titãs conseguiu aqui.
Em 2012, para comemorar os 30 anos da banda, eles fizeram uma turnê tocando o álbum na íntegra e além disso, o álbum foi relançado com faixas bônus que incluem versões demo, além de uma música inédita: “Vai Pra Rua“, composição de Arnaldo Antunes e Paulo Miklos. A faixa entraria no lançamento original, mas foi substituída por “Porrada“. Em 2021, comemorando os 35 anos, ele foi relançado, mas sem as faixas bônus, respeitando as faixas lançadas em 1986.
Hoje, da formação original do Titãs, restam apenas Sérgio Britto e Tony Belloto e a banda nem de longe se parece com aquela que assombrou o Brasil na segunda metade dos anos 1980. Fica aqui toda a nossa reverência para esse disco, que envelheceu bem, sendo sem sombra de dúvidas, um dos cinco melhores álbuns de Rock/ Metal da cena brasileira de todos os tempos. É dia de comemorar, ouvindo o play, de preferência no volume máximo. A banda tem realizado alguns shows em comemoração aos 40 anos do álbum, para desespero do cara que bebe detergente e reza para pneu. Longa vida ao Titãs.

Cabeça Dinossauro – Titãs
Data de lançamento – 25/06/1986
Gravadora – Warner
Faixas:
01 – Cabeça Dinossauro
02 – AAUU
03 – Igreja
04 – Polícia
05 – Estado Violência
06 – A Face do Destruidor
07 – Porrada
08 – Tô Cansado
09 – Bichos Escrotos
10 – Família
11 – Homem Primata
12 – Dividas
13 – O Quê?
Formação:
- Arnaldo Antunes – vocal em “O Quê?”, “Porrada”
- Branco Mello – vocal em “Cabeça Dinossauro”, “Dívidas”, “Tô Cansado”, “A Face do Destruidor”
- Sergio Britto – teclados, vocal em “Polícia “, “Homem Primata”, “AAUU”
- Tony Belloto – guitarra
- Nando Reis – baixo/ vocal em “Igreja”, “Família”
- Marcelo Fromer – guitarra
- Paulo Miklos – vocal em “Bichos Escrotos”, ‘Estado Violência”
- Charles Gavin – bateria
Participações especiais:
- Liminha – guitarra em “O Quê?” e “Família” e percussão em “Cabeça Dinossauro”
- Repolho – castanhola em “Homem Primata”