Daniel Bohn, direto de St. Louis (EUA), lança o terceiro álbum ‘Gallant Guest’. O trabalho sucede o álbum dois grandes discos e traz um som mais lapidado que mistura diversas referências e entrega tons nostálgico, moderno e cheio de peso. Não à toa, esse novo disco é a prova de que o artista encara o metal como laboratório: energia crua, sujeira bem-vinda e uma boa dose de cinismo embalada em riffs e dinâmicas que soam contemporâneas, mas também reverenciam o passado.
A jornada começa com “Runes”, uma abertura explosiva: riffs secos, bateria marcada e uma produção que já escancara o tom do disco — direto, sem massagem, mas cheio de detalhes escondidos nas camadas de guitarra. Uma faixa que entrega o puro death metal progressivo sem firula – lembrando muito bandas clássicos como Death até as mais novas como Cynic. Multi-instrumentista que compõe, grava e produz sua própria música, Daniel Bohn pode ser considerado uma novato na indústria da música, no entanto, a sofisticação de suas músicas mostra que tem um conhecimento muito além daqueles novatos.
Logo depois, a faixa-título mantém o peso, agora com grooves e muitos momentos de pré-tensão: baixo pulsante, vocais que exploram nuances entre o rasgado e o gutural clássico, lembrando como a escola do death metal e black metal podem se cruzar – mas com riffs pesados nitidamente inspirados em Chuck Schuldiner. Estamos na segunda faixa mas já é notável que os vocais de Daniel irão carregar todo o disco, nos conduzindo por essa audição maravilhosa. Não à toa, ‘III’ é uma obra sombria, pesada e introspectiva, de guitarras estridentes e instrumentação técnica.
A sonoridade em geral mescla peso do death metal e progressivo, com um apelo melódico acessível, resultando em músicas que equilibram agressividade contida com passagens introspectivas. É um som que não se perde em virtuosismo: a força está na simplicidade dos acordes e na intensidade da entrega, sempre mirando impacto imediato e emocional. A voz é talvez o elemento mais reconhecível: grave, dramática, com gutural carregado e sempre colocada em primeiro plano, com um tom de urgência e tirada do amargo.
Segundo o release, o disco é “sombrio. Pesado. Rápido — assim como a vida. Gallant Guest mergulha no amor, na doença mental, na enfermidade e no mistério persistente, impulsionado por uma onda de death metal e caos progressivo”. e já vemos isso na sequência, com “Bonfire”, primeiro single do disco, que aumenta a intensidade e se torna a mais black metal do álbum, com linhas de guitrra estridentes e vocais mais assombrosos e desesperados. A instrumentação traz algo mais místico, uma energia diferente de todo o disco, até sermos surpreendidos com a potência vocal e uma base rítmica sólida e sentimental, ao final chega expandindo o som.
“Failure” abaixa o tom e chega com uma pegada mais suave na entrada, e logo culminará em uma bateria urgente e um refrão poderoso, que remetem ao black metal melódico. A faixa é a balada do disco, que apresentada com aquela vibe sentimental sombria levada ao limite. Aqui ouvimos os vocais limpos e suaves de Daniel, que são sonhadores e muito bem colocados na música – eu adorei.
Chegando a “Pain From Within I: Unrequited Love”, o clima sombrio e suave continua, robusto e cheio de inspiração. Aqui vemos outro lado do artista, com pianos e vocais limpos, até sermos surpreendidos com o peso e raiva do metal extremo. Os riffs densos e melodias abertas se misturam, quase sempre ancoradas em afinações mais graves. A bateria segue um caminho sólido e direto, priorizando batidas retas e poderosas, criando uma base quase marcial. O peso que todo fã de metal extremo espera.
Em “Pain From Within II: Disillusioned Romance” somos novamente jogados ao peso e densidade, com riffs e vocais de energia única e uma construção que quase beira o progressivo. Sem cair na pompa excessiva, a faixa conquista aqueles que apreciam o bom e velho Blackened death metal, mas não é uma faixa simples para ouvir como pano de fundo, é preciso prestar atenção nos vocais que nos hipnotizam e nos riffs que querem ensinar algo.
“Stars of Silence” traz riffs mais melódicos e diferentes de todo o disco, com vocais fortes e inspiração de bandas mais alternativos dos anos 90, algo meio post punk. Os backvocals ajudam a criar esse clima diferente de todo o disco. É como se fosse uma música perdida encaixada no álbum, que pode desagradar os fãs que esperam só porradaria. Mas eu adorei essa música, é densa e pesada sentimentalmente, mas com energia oldschool do rock alternativo.
Preparando os ritos finais, temos “Tarn of the Fallen Voice”, a faixa mais longa do disco, que volta ao peso com riffs rápidos e bateria potente. Os vocais mais agressivos de todo o disco, destilando raiva e o peso do death metal que fez a gente se apaixonar pelo disco. O fechamento fica com “Verisimilitude”, que entrega um final que soa como uma explosão de sentimentos, voltando ao tom místico do progressivo sem perder a autenticidade grave de Daniel, aqui há tons de Opeth e Katatonia, exalando emoção com uma sonoridade empecavel. Os vocais em dueto, limpos e guturais de Daniel são a cereja do bolo, o final épico e grandioso.
‘Gallant Guest’ é uma obra de arte, em meio a tantos artistas novos e trabalhos lançados na internet, esse com certeza se destaca!