Resenhas

The Last Food on Earth

Ghost of Panama

Avaliação

8.0

Há discos que contam histórias por meio de faixas independentes. Outros preferem construir uma narrativa contínua, em que cada música representa um novo capítulo. É esse o caminho escolhido pelo Ghost of Panama em ‘The Last Food on Earth’, álbum lançado em 27 de abril de 2026. Ao longo de 10 faixas, a dupla britânica retrata o ciclo de um relacionamento, explorando sentimentos como dependência, culpa, aceitação, dúvida e, por fim, a busca por um recomeço. Gravado em grande parte em um estúdio caseiro no oeste de Londres, o disco combina pop alternativo e experimentação sonora.

Formado em Londres por Keith Welham e Cristabel Liu, o Ghost of Panama surgiu em 2022 e passou por mudanças de formação e identidade musical antes de chegar ao primeiro álbum. Com ‘The Last Food on Earth’, a dupla apresenta um trabalho que equilibra experimentação, melodias pop e uma narrativa emocional construída do início ao fim.

A abertura com a apropriada “The Lift”  já mostra suas origens enigmáticas. Um classic rock sombrio com sentimento profundo. Logo na primeira faixa a dupla transmite sua lamúria e dor emocional, onde perfura o ouvinte. Ghost of Panama foca em música emocionalmente intensa, onde o disco molda a sensibilidade cinematográfica da música: as canções se desenrolam como cenas encenadas, com paisagens intensas, conferindo aos discos um apelo narrativo distinto.

Em “Stockholm Syndrome Reversed” temos guitarra de indie pop, linhas de violão e uma pegada cheia de atitude com um instrumental mais despojado e dançante. Os vocais descolados e inspirados nos anos 70 trazem uma autenticidade difícil de ignorar, como um estudo de personagem psicodélico. O disco tem variações de sentimento, na “Half-Life”, o clima muda completamente para algo mais lisérgico e introspectivo, uma faixa hipnotizante que parece flutuar em um mar de reverberação, onde a produção utiliza gravações captadas em diferentes pontos da cidade para criar texturas incomuns. Essa faixa é um exemplo, onde substitui a bateria tradicional pelo som da respiração humana e de um contador Geiger, criando uma atmosfera de tensão que acompanha o desenvolvimento da narrativa.

Chegando na faixa “Damage”, o piano, violão e orquestração já começam profundas e cortantes, a canção toca na alma. Apesar da proposta conceitual, o álbum alterna momentos mais acessíveis, como nesta faixa, que traz muitos elementos do rock, com uma pegada envolvente, é uma música emocionalmente intensa, voltada para a audição atenta, e não para ser ouvida como música de fundo – assim como todo o disco.

Em seguida, “The Ultimate Maybe” é a que chamamos da balada do disco, mantendo o clima introspectivo com instrumentos simples mas cortantes, criando um clima mágico e melancólico – reforçando que o disco foi construído em torno de forte dinâmica e estruturas de música não convencionais. Os riffs de violão e os vocais encantadores provam que a dupla quis que essas músicas ressoem com seu público e os lembrem de que não estão sozinhos nessa jornada – e é exatamente isso.

“Ghost of Your Perfume” resgata uma pegada old school do southern rock, com vocais fortes e marcantes, e linhas de violão dando um toque especial com bateria melancólica e pianos dos anos 80, um hit de primeira linha que lembra Patti Smith, dignos de trilhas sonoras de filmes românticos da década de 1970 – uma faixa muito cinematográfica.

Já “Island” nos transporta para o deserto, com uma atmosfera densa e reflexiva, com riffs sonhadores, baixo pulsante, sintetizadores post punk e vocais de arrepiar. É uma faixa que quase podemos ver o sol poente em tons laranja enquanto a melodia se estende no horizonte. Na seguinte, “Siberia”, explora som mais soturno, onde os riffs característicos do post punk dos anos 80 se destaca com uma linha minimalista e poderosa. Os vocais assombrosos dão espaço para os vocais apaixonantes de Cristabel Liu. A dupladá um passo criativo e experimental aqui, criando um equilíbrio fascinante.

“Aftrlife” inicia com linhas de teclados ao estilo progressivo dos anos 70 e um tom orquestrado, outra faixa perfeita para trilhas sonoras. A ousadia nessa obra é fundamental para o DNA do projeto, permitindo que cada lançamento soe como um novo capítulo, em vez de uma repetição de uma fórmula fixa. A música tenta dar contraste à faixa anterior, mas mantém o clima misterioso, prendendo o ouvinte e o convidado para desvendar todo esse mistério que o artista proporciona. “Aftrlife” é a faixa que mais gostei da melodia.

Encerrando essa viagem sonora perfeita, temos “North Star”. Aqui, TGhost of Panama nos leva de volta ao rock, elegante e nostálgico, que encerra o álbum com um toque soturno e conclusivo – mas não tire conclusões até ouvir a faixa inteira. Ghost of Panama entrega uma obra que mistura ousadia, melancolia e experimentação, tudo com um toque totalmente nostálgico que só eles sabem fazer. Definitivamente, você precisa ouvir esse álbum – mais de uma vez, pois foi criado fora de tendências e algoritmos, com a intenção de que os ouvintes o vivenciem como um ciclo emocional completo.