Há 30 anos, em 23 de março de 1996, o Angra lançava o seu segundo álbum. Os caras fizeram uma aposta de risco: se no aclamado “Angels Cry” já haviam breves flertes com a música brasileira, em “Holy Land“, eles fizeram a musicalidade nacional predominar em meio ao Heavy Metal praticado pela banda. O resultado não poderia ser um disco fantástico, épico e obrigatório na discografia de qualquer pessoa que goste de música. É sobre essa obra magistral que o Memory Remains desta segunda-feira vai tratar.
Lançado um mês depois de “Roots“, do Sepultura, o disco causou polêmica na imprensa especializada na ocasião, tudo pelo fato de ambas as bandas terem incluído ritmos brasileiros. A treta foi mais alimentada pelos fãs do que pelas bandas, já que ambos os trabalhos tinham suas peculiaridades. Enquanto a banda dos irmãos Cavalera enveredou pela cultura indígena, coisa que eles já haviam feito em “Chaos A.D.” na instrumental “Kaiowas“, ο Angra deu uma abrangência maior a outras vertentes da música brasileira, como obaião, que já era possível de se perceber em “Never Understand“, do álbum de estréia, até mesmo para músicas de origens africanas. Então, não haviam razões para rivalidades e cada banda seguia fazendo o seu melhor e agradando ao seu público, o que não impediria alguém gostar de ambas as bandas.
Após a turnê de divulgação do disco de estreia, em que colocou a banda dividindo palco com gente como o Black Sabbath, na versão Brasileira do festival “Monsters of Rock“, 1994 e mostrou ao mundo que muito mais do que o país do samba e do futebol, o Brasil era celeiro de excelentes bandas de Heavy Metal. Então os caras se reuniram para este projeto ambicioso que deu muito certo. Certamente, a formação erudita de Andre Matos, que era maestro, foi fundamental no sucesso da empreitada.
“Holy Land” é um disco conceitual, trata do Brasil em 1500, quando do início da exploração portuguesa (N. do R: nós vamos aqui evitar falar em “descobrimento”, pois na historiografia este termo encontra-se em desuso, uma vez que há registros de presença do homem por estas bandas há pelo menos 15 mil anos, logo, o “descobrimento” nada mais é do que um termo eurocêntrico). Há muita influência da música brasileira e também da música clássica, o que simbolizava a Europa no século XVI. O folclore nacional e os indígenas, que foram tão massacrados pelo governo anterior, são valorizados por aqui.
O aniversariante de hoje é uma super produção e como tal, reuniu muita gente por trás: a começar na produção, que ficou a cargo de Sascha Paeth e Charlie Bauerfeind; Tuto Ferraz ficou com a produção na parte das percussões. Como uma super produção, foram utilizados nada menos do que cinco estúdios para gravar o play: os vocais, piano e órgão foram gravados no “Vox Klang Studio”, em Bendestorf, Alemanha; os convidados especiais gravaram tudo do Brasil, no “Djembe Studio”, São Paulo; os demais instrumentos foram gravados no “Hansen Studio”, Hamburgo, “Big House Studios”, Hannover e no “HG Studio”, Wolfsburg, Alemanha. Tudo isso entre os anos de 1995 e 1996. Deu trabalho, mas valeu muito a pena. O disco teve seu processo de gravação atrasado, pois Andre Matos sofreu um sério problema em suas cordas vocais, logo depois que a banda retornou da turnê pela Europa. E ouvindo o disco, nem parece que a lenda havia tido qualquer adversidade.
Bolacha rolando, são 56 minutos de audição onde temos tudo de melhor que o Heavy Metal pode nos proporcionar em termos de técnica e feeling, aliados à musicalidade única brasileira. E quando nos referimos a esse termo, não estamos falando desses lixos musicais que infestam as rádios, programas de TV e as festas em geral, até porque tais estilos não existiam. A ruindade musical da época era outra e eles sabiam que não era o melhor caminho se juntar ao que seria facilmente esquecido. Eles optaram pelo lado erudita da música brasileira e isso é digno de muitos aplausos. Algumas músicas merecem destaque como “Nothing to Say“, “Silence and Distance“, “Carolina IV“, a própria faixa título, “Make Believe“, “Z.I.T.O.”. Um disco sensacional.
Infelizmente após o lançamento de “Holy Land“, os problemas entre os músicos começaram a virem a tona. Andre Matos, Luis Mariutti e Ricardo Confessori ainda gravariam “Fireworks“, o álbum posterior, mas depois debandaram para formar o Shaman. Mas o que fizeram com o aniversariante de hoje está eternizado na história da música pesada. Era o Brasil colocando definitivamente, os dois pés no mundo do Metal.
Recentemente, o Angra chegou a anunciar um hiato, mas ao que parece, a banda vai continuar a se apresentar. Mês que vem, haverá a apresentação no Bangers Open Air, que será o último show com Fabio Lione no vocal, além de contar com Kiko Loureiro, Aquiles Priester e Edu Falaschi, e vai contar com a estreia de Arlirio Neto, novo vocalista da banda. Há apresentações agendadas para o verão europeu, onde a banda vai tocar o nosso trintão na íntegra.
Vamos celebrar mais um ano deste álbum que é um dos maiores tesouros do Heavy Metal brasileiro, que chega aos 30 anos e envelhece muito bem, obrigado. É dia de colocar essa bolacha para tocar no volume máximo. Somos afortunados por ter testemunhado o Angra fazendo história e levando o nome do nosso país mundo afora.

Holy Land – Angra
Data de lançamento: 23/03/1996
Gravadora: Paradoxx Music
Faixas:
01 – Crossing
02 – Nothing to Say
03 – Silence and Distance
04 – Carolina IV
05 – Holy Land
06 – The Shaman
07 – Make Believe
08 – Ζ.Ι.Τ.Ο.
09 – Deep Blue
10 – Lullaby for Lucifer
Formação:
- Andre Matos – vocal/ teclados/ órgão/ orquestrações
- Kiko Loureiro – guitarra/ violão/ percussão em “Carolina IV“
- Rafael Bittencourt – guitarra/ violão/ percussão em “Carolina IV“
- Luis Mariutti – baixo
- Ricardo Confessori – bateria/ percussão
Participações especiais:
- Mônica Tiele – vocal
- Celeste Gattai – vocal
- Reginaldo Gomes – vocal
- The Farrabamba vocal Group – côro
- Sascha Paeth – programação de teclados/ arranjos orquestrais
- Paulo Bento – flauta
- Pixu Flores – berimbau
- Ricardo Kubala – viola
Castora – apito/ tamborim/ percussão
Holger Stonjek – baixo