Entrevistas

Disconnected (Adrian Martinot): “Hoje falamos muito em vírus, mas eu realmente acho que somos o mais perigoso vírus na Terra.”

A maior revelação do metal moderno francês, o Disconnected chega ao mercado latino com o single ‘Life Will Always Find Its Way’. Produzido por Adrian Martinot (guitarrista), Ivan Pavlakovic (vocal) e mixada/masterizada pelo baterista Jelly Cardarelli e seu parceiro de longa data Symphéris, ‘Life Will Always Find Its Way’ é uma música que propõe uma reflexão contra a destruição de nosso planeta. Conversamos com Adrian e Ivan que nos contou um pouco mais sobre o momento da banda em plena pandemia de COVID-19 e como foi o grande encontro com Rob Halford, o gentil Deus do Metal e como Mark Tremonti (Tremonti, Alter Bridge, ex-Creed) mudou a vida da banda. Confira!

Mark Tremonti é certamente uma grande influência para muitos músicos, mas para o Disconnected ele tem um lugar bem especial na carreira da banda. Vocês poderiam falar um pouco como vocês conseguiram fazer uma turnê com Tremonti há dois anos?

Adrian: Primeiramente eu escuto a música do Mark desde que eu era um garoto. Quero dizer, eu me lembro ouvindo á música ‘Weathered’ do Creed quando eu tinha 12 anos ou algo assim e todos os projetos dele (Alter Bridge, Tremonti). Eles nunca me deixaram desde aquele dia. Eu sou um grande fã da música dele por pelo menos 20 anos agora e é claro que ele é minha principal influência musicalmente. Mas voltando a sua pergunta, tive a chance de encontrar Mark no backstage do festival Hellfest em 2018 e apresentei o Disconnected. Ele foi muito educado como sempre, gentil e aberto para escutar nossas músicas e nos contou que ele iria fazer uma turnê pela Europa com o Tremonti em Outono do mesmo ano. Entrei em contato com a nossa parte administrativa e tentamos ir junto – mas eles responderam e falaram que tinham algumas bandas na fila que já haviam feito o pedido. Alguns dias depois ficamos sabendo que fomos escolhidos! Foi uma das oportunidades mais incríveis que tivemos até agora e eu agradeço ao Mark e toda sua equipe por isso!

Ivan: Eu também sou um grande fã do Mark Tremonti, especialmente do projeto solo dele Tremonti. Não tenho muito para acrescentar ao que Adrian falou como nós chegamos a abrir para a banda, mas queria falar algo a respeito. Enquanto estávamos em contato com a parte administrativa dele, começamos anos aproximar mais dos fãs do Mark que realmente curtiram a nossa música e começaram a nos dar apoio em diversos outros canais também. Estou certo que isto também foi importante para que eles selecionassem a gente.

Esta foi uma das coisas mais notáveis que vocês conquistaram. Vocês têm outros fatores de sucesso que vocês gostariam de comentar? É importante já que outras bandas iniciantes os tenham como referencia…

Adrian: Alguns meses após a turnê com Tremonti, abrimos para o Judas Priest em Paris! Muito difícil colocar isto em palavras o que sentimos naquela noite. Foi como um sonho se tornando realidade. Tocamos para mais de 8.000 pessoas – foi mágico!

Ivan: Hellyeah! Fale mais dos Deuses do Metal! 40 minutos antes de nosso show começar alguém batendo no nosso vestiário – era ninguém mais ninguém menos que Rob Halford se apresentado e perguntando como nós estávamos e nossos projetos para o futuro, contando o quão feliz ele estava em ter a gente abrindo pra eles. Que cavalheiro… Eu me lembro de ter pensado nisto (“Agora que falei com o Deus do Metal eu acho que poderia morrer agora e ainda me sentir como se eu tivesse feito algo sensacional na minha vida!”) (risos). Isto a gente pode definitivamente chamar de memórias de uma vida. Só de escrever a respeito agora me dá uns arrepios…

COVID-19 acabou com todas as oportunidades de turnê de bandas e com o Disconnected não foi muito diferente. Como vocês conseguiram permanecer ativos nestes dois anos?

Adrian: Em Março de 2020 estávamos no meio da gravação do nosso novo álbum então achamos que isto não duraria mais que alguns meses. Mas quando todos os festivais de verão que estavam agendados na Europa (RockFest, Wacken e Cabaret Vert (abrindo para Slipknot)) foram adiados, a gente realmente se sentiu mal pra caramba. Foi um momento difícil para todos. Decidimos postergar o lançamento do álbum novo, pois é muito difícil lançar material novo sem ter uma turnê conectada para bandas como nós. Por enquanto gravamos um EP bonitinho “The Downtime” com três versões acústicas para algumas de nossas músicas mais algumas remixagens e uma versão orquestrada para a faixa ‘White Colossus’!

Ivan: Yeah! Passamos por alguns momentos de acabar com nervos… Em Fevereiro de 2020 antes de a pandemia arrasar a França a gente gravou um clipe para a faixa ‘Unstoppable’ que é o nosso grande sucesso até agora. A música foi mixada e o videoclipe estava pronto quando estávamos já em regime de lockdown e decidimos com os nossos agentes de promoção na Europa e EUA lançar ele em Abril de 2020. Funcionou muito bem e a gente teve uma boa exposição com a campanha para ‘Unstoppable’ que alcançou mais de 1 milhão de streams no Spotify até agora. São números imensos para nós. Quero dizer – queremos muito mais! Acreditamos que nosso novo single ‘Life Will Always Find Its Way’ tem o mesmo potencial e até poderá superar a meta do single anterior.

O single ‘Life Will Always Find Its Way’ é uma música que vocês gravaram em tempos de pandemia de COVID-19. Você pode contar um pouco pra gente como esta música surgiu na sua cabeça?

Adrian: Na verdade eu escrevi esta música logo depois do show com o Judas Priest em Janeiro de 2019 então não tem muito haver com a pandemia (risos). Até o tema do videoclipe vai sugerir o contrário.

Ivan: Exatamente! A música só ressoa muito bem com os tempos de hoje. É na verdade engraçado pensar que escrevemos a música sobre a raça Humana como vírus do planeta mesmo antes da pandemia. Acredito que é a mãe natureza dizendo que devemos desacelerar se ainda quisermos morar por aqui. Eu definitivamente vejo que estas mudanças climáticas, pandemias de novos vírus são alertas fortes. Temos que respeitar nosso Meio Ambiente ou ele se voltará contra nós.

Emmanuel Rousselle/Divulgação

O videoclipe para ‘Life Will Always Find Its Way’ é muito bem feito e as cenas, filmadas num depósito de uma fábrica abandonada são incríveis. Como vocês conseguiram alugar algo assim e filmar tudo em tempos de pandemia?

Adrian: Obrigado! Nós somos sortudos por poder trabalhar com um dos melhores amigos do Ivan, que também é videomaker e que nos ajuda desde o início com sua equipe. Gravamos o videoclipe no começo de Dezembro de 2020 num hangar abandonado então isto não nos custou nada. Lembro-me de gastar o meu dia inteiro até as 23:00 da noite com uma temperatura de zero graus e que tudo foi épico demais. Fico feliz de ter levado algumas garrafas de Don Papa (N.E.: marca famosa de Rum) para nos aquecer durante as pausas de gravação.

Ivan: (muitos risos) Sim! Don Papa ia nos aquecer sim se um de nossos membros da equipe não tivesse tomado a garrafa inteira! (muitos risos) Brincadeiras a parte, somos muito sortudos em sermos amigos de Antoine De Montremy. Curioso é que ele esteve aí no Brasil em Agosto onde ele gravou um videoclipe para o Angra. Ele tem um webzine chamado Duke TV e ele é apaixonado por heavy metal. Ele é um cara incrível e um ótimo profissional. O desafio principal do videoclipe foi gravar num galpão com arquivos que combinam com o tema da música, especialmente com o nível de sensibilidade do tipo do filme. Os caras fizeram um trabalho incrível com ele e estamos muito felizes com o resultado final!

As cenas de vocês no galpão foram misturadas às cenas de poluição e destruição da natureza. Qual a importância da natureza para vocês?

Adrian: É muito importante, pois traz uma reflexão sobre o Mundo. Eu tento o máximo possível respeitar a natureza a cada dia que passa. Sou vegetariano já há alguns anos. Preciso dizer que a situação com a pandemia me ajudou a colocar as coisas numa perspectiva diferente e ver o quão frágil é a nossa maneira de viver.

Ivan: Eu concordo totalmente com Adrian sobre a pandemia de COVID-19 colocar coisas numa perspectiva nova. Precisamos tomar mais cuidado uns dos outros e também com o Meio Ambiente. O Mundo está ficando louco com todos querendo mais, gastando mais. Quão inúteis serão todas aquelas propriedades imensas, com grandes carros e joias se não há água o suficiente na Terra para que todos nós possamos beber dela?

Vocês acham que a natureza se vingará do Ser Humano em algum momento?

Adrian: Eu acho que sim e meio que o merecemos até agora. É na verdade o significado da música ‘Life Will Always Find Its Way’. Hoje falamos muito de vírus, mas eu realmente acho que somos o mais perigoso vírus na Terra. Quando você olha para a história do Ser Humano, como arruinamos o planeta em poucas centenas de anos. Eu sou meio cético quando o assunto é como/quando as coisas vão mudar. Eu espero que sim. Tenho uma alma de lutador e eu não vou desistir, mesmo sabendo que estamos no meio de tempos bem sombrios. Mas se não mudarmos o nosso jeito de viver, eu acho que a natureza vai superar o Ser Humano. Vamos ter esperança mesmo assim, pois se toda a esperança desaparecer, vida não terá mais sentido. Muito Obrigado pela entrevista e pelo interesse pela banda!

Ivan: Estou na mesma página que o Adrian neste ponto. Ele falou tudo. Eu também sou pai, então isto me faz batalhar para que meu filho tenha o melhor e ele não tenha que sofrer por nossos erros do passado. Natureza sempre tem mais imaginação que nós (poderia ser até título de música, mesmo sendo longo demais (risos). Se causarmos muitos problemas eu definitivamente acho que ela se livrará de nós. Mas antes disto espero que possamos vir á América Latina e tocar para vocês! Muito obrigado mais uma vez pelo interesse e apoio!