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Mayhem e a Cultura do Cancelamento. Devemos nos preocupar com a censura e o linchamento público nas redes sociais?

Mayhem e a Cultura do Cancelamento. Devemos nos preocupar com a censura e o linchamento público nas redes sociais?

18 de março de 2023


A cultura do cancelamento nas redes sociais é um fenômeno recente que consiste em “cancelar” pessoas, marcas, produtos ou empresas que tenham se envolvido em algum tipo de controvérsia ou escândalo, geralmente relacionado a questões morais ou políticas. Essa cultura do cancelamento tem sido criticada por alguns por sua tendência ao linchamento público, à falta de diálogo e à censura.

Num caso específico recente, o professor de filosofia Renato Levin-Borges, conhecido como Judz, fez uma denúncia em suas redes sociais sobre a banda norueguesa Mayhem, acusando-a de ter ligações com o nazismo. Essa denúncia gerou uma série de acusações e defesas na internet, bem como a pressão para o cancelamento do show da banda em Porto Alegre que envolveu até um deputado estadual, Leonel Radde (PT-RS).

Na esteira destes acontecimentos, o bar Opinião acabou cedendo à pressão e desistiu da realização do show temendo o “potencial risco à integridade física de todos os envolvidos”.

O deputado Fábio Félix (PSOL-DF) também acionou o Ministério Público e a Polícia Civil para atuar de forma “preventiva” para tentar proibir a apresentação da banda norueguesa em Brasília, marcada para 22 de março. A casa de shows Toinha Brasil Show se pronunciou ontem (17) que cancelaria a apresentação “caso seja constatado pelos órgãos competentes indícios de apologia ao nazismo”.

Gostaria de fazer um paralelo deste caso com a banda Behemoth, em que o vocalista Adam “Nergal” Darski foi condenado e posteriormente absolvido em 2022 da acusação de blasfêmia movida por políticos de direita da Polônia. Isso mostra como parlamentares podem tentar censurar a expressão artística e cultural de uma banda por motivos políticos. Da mesma forma que no caso da suposta acusação contra o Mayhem, é importante lembrar que acusações infundadas e cancelamentos sem evidências são práticas prejudiciais à liberdade de expressão. No caso do Behemoth, os políticos tentaram usar uma acusação de blasfêmia para censurar a banda, o que é uma forma de limitar a liberdade de expressão e promover uma agenda política específica.

É essencial frisar que a arte e a cultura devem ser livres de interferências políticas e ideológicas, e que a censura e a limitação da liberdade de expressão são prejudiciais ao desenvolvimento de uma sociedade livre e aberta. Políticos devem trabalhar para proteger a liberdade de expressão e promover um diálogo aberto e saudável com a sociedade, em vez de tentar censurar ou limitar a expressão artística e cultural por motivos políticos.

Não há evidências concretas e cabais que sugiram que o Mayhem seja uma banda nazista (isso não significa que sejam inocentes, mas carece de uma investigação séria e um cabível processo legal se for o caso). De fato, as letras do grupo são frequentemente consideradas controversas e ofensivas por muitas pessoas, abordam temas sombrios e violentos, muitas vezes relacionados a morte, destruição e ocultismo. Em muitas das letras, a banda explora o lado mais obscuro da existência humana, às vezes com uma abordagem filosófica, mas em nenhuma delas podemos identificar antissemitismo ou a supremacia da raça ariana (características inexoráveis do nazismo).

O que foi visto nas redes foram diversas acusações e post sem o devido cuidado investigativo, assim como matérias em diversos portais com informações errôneas ou atribuindo à banda culpabilidade por atos de seus ex-membros, um deles que deixou o grupo em 1993 (Varg Vikernes).

Adiciono aqui os posts dos colegas jornalistas Leandro Demori, do Intercept Brasil, e de Carlos Guimarães, pesquisador e professor da ESPM, que comungam da mesma opinião que a minha com relação a este caso (sigam os post completos):

Embora existam algumas bandas e indivíduos dentro da cena do black metal que promovem ideologias de extrema-direita, isso não representa a cena em si. A maioria dos artistas de black metal se concentra em temas como mitologia, satanismo, paganismo e outros assuntos sem relação com ideologias políticas.

Devemos acender o sinal de alerta de que a cultura do cancelamento pode levar a um julgamento público sem um devido processo legal. Isso pode resultar em consequências negativas para a reputação das pessoas ou empresas envolvidas, mesmo que as acusações sejam infundadas ou tenham sido baseadas em informações equivocadas. Os integrantes do grupo que cometeram crimes já cumpriram pena em seu país de origem.

Talvez o objetivo possa ser nobre, já que estes movimentos e mobilizações muitas vezes buscam responsabilizar aqueles que promovem discurso de ódio ou violência, mas é importante analisar seus riscos à liberdade de expressão e cultural. Primeiramente, a cultura do cancelamento pode levar a um clima de censura e autocensura, onde as pessoas podem ter medo de expressar opiniões divergentes, mesmo que essas opiniões sejam importantes para o debate público.

Além disso, a cultura do cancelamento pode levar à polarização e à falta de diálogo construtivo. Em vez de tentar entender e dialogar com aqueles que têm opiniões diferentes, a cultura do cancelamento tende a excluir essas pessoas e rotulá-las como inimigos. Isso pode levar a um aumento da divisão e do conflito social. E isso obviamente pode afetar e respingar em outros gêneros musicais como o goregrind ou o heavy metal de uma forma generalizada, criando um clima preocupante para a diversidade cultural e o desenvolvimento artístico.

Outro risco da cultura do cancelamento é que ela pode ser usada de forma abusiva. Às vezes, as pessoas são canceladas por algo que disseram ou fizeram há muitos anos, mesmo que tenham se arrependido ou mudado de opinião desde então. Isso pode levar a uma situação em que as pessoas são punidas por algo que não representa mais suas crenças ou valores atuais.

Por fim, a cultura do cancelamento pode ser vista como uma forma de justiça instantânea, onde as pessoas são julgadas e condenadas publicamente sem um processo justo. Isso pode levar a uma situação em que as pessoas são culpadas sem que haja uma investigação adequada.

Reprodução

Mayhem: uma banda maldita

A banda Mayhem é uma das mais notórias e controversas bandas de black metal da Noruega, tendo ganhado fama tanto por sua música quanto por seus escândalos e crimes.

Um dos eventos mais notórios envolvendo a banda foi o suicídio do vocalista Per Yngve Ohlin, também conhecido como “Dead”, em 1991. Seu corpo foi descoberto por Euronymous, guitarrista da banda, que tirou fotos do cadáver antes de chamar a polícia. As fotos acabaram sendo usadas como capa de um bootleg lançado pela banda, gerando muita polêmica.

Em 1993, o guitarrista Euronymous foi assassinado pelo ex-membro da banda Varg Vikernes, também conhecido como “Count Grishnackh”. O assassinato foi motivado por uma disputa sobre a direção da cena black metal norueguesa. Vikernes foi condenado a 21 anos de prisão pelo assassinato.

Outros membros da banda também estiveram envolvidos em crimes. O baterista Jan Axel Blomberg, também conhecido como “Hellhammer”, foi condenado por posse de armas e explosivos em 1993, enquanto o baixista Jørn Stubberud, conhecido como “Necrobutcher”, foi preso por porte de armas em 1991.

Além dos crimes, a banda também ganhou notoriedade por suas atitudes extremas, incluindo suspeita da queima de igrejas cristãs na Noruega. Esses eventos foram parte de uma cena black metal que se desenvolveu na Noruega nos anos 90, caracterizada por uma estética sombria e violenta e uma ideologia anti-cristã e anti-social.

Apesar de toda a controvérsia, a música da banda Mayhem continua sendo influente no cenário do black metal até hoje.

 

Varg Vikernes, assassino do guitarrista Euronymous

Rustem Adagamov/Creative Commons

Varg Vikernes, assassino do guitarrista Euronymous

Os crimes e suas respectivas penas

Varg Vikernes (esteve no Mayhem de 1992 a 1993): 21 anos de prisão pelo assassinato do guitarrista Euronymous em 1993, posse ilegal de armas e incêndios criminosos em igrejas. Ele foi libertado em 2009 após cumprir 16 anos de sua sentença.

Hellhammer (no Mayhem desde 1988): 8 meses de prisão em 1993 por posse ilegal de armas e explosivos. Foi libertado após cumprir sua pena.

Jørn Stubberud (único membro original): preso em 1991 por porte ilegal de armas, mas não chegou a ser condenado e foi libertado após algumas semanas.

* Em relação aos eventos em torno do suicídio do vocalista Dead, não houve acusações criminais contra nenhum dos membros da banda. As fotos do corpo foram usadas como capa de um bootleg lançado pela banda, mas ninguém foi condenado pelo uso das imagens.

Ester Segarra/Divulgação

Formação atual:

Attila Csihar: vocal
Necrobutcher: baixo
Teloch: guitarra
Ghul: guitarra
Hellhammer: bateria