Memory Remains

Memory Remains: Morbid Angel celebra os 30 anos de “Covenant”, a distribuição por uma major e o flerte do Death Metal com o mainstream

22 de junho de 2023


Em 22 de junho de 1993, o Morbid Angel lançava “Covenant”, o terceiro álbum oficial de sua discografia. Sim, dizemos terceiro porque antes a banda lançou “Abominations of Desolation“, uma demo gravada originalmente em 1986. Na sequência cronológica, o aniversariante do dia seria o quarto. O mais novo trintão do Death Metal é assunto do nosso Memory Remains desta quinta-feira, dia de TBT.

Durante a década de 1990 a gente viu a decadência do Heavy Metal de maneira geral, com as bandas tendo uma crise de identidade que parecia não ter fim. Pantera e Sepultura se destacavam e ocupavam o mainstream, mesmo com a resistência da mídia que insistia em manter outras vertentes em evidência. Entretanto, nascia na região de Tampa, Florida, uma cena que se tornaria lendária: a cena do Death Metal americano. Bandas como Death, Obituary, Deicide, são crias desta região. Até o Cannibal Corpse, que originalmente é de Buffalo, migrou para o estado. O Morbid Angel não ficou para trás e se tornava uma referência do estilo.

O relativo sucesso alcançado com seus dois álbuns anteriores, “Altars of Madness” (1989) e “Blessed are the Sick” (1991), rendeu um contrato com a Giant Records, uma subsidiária da Warner Bros. Este contrato garantiu a distribuição do álbum por uma major nos Estados Unidos, o que faz do álbum o primeiro de Death Metal na história a ter uma distribuição por uma grande gravadora. Já na Europa e no resto do mundo, o álbum continuou a ser lançado pela Earache, como os anteriores. Mas nem tudo foram flores: a banda teve que lidar com a saída do guitarrista Richard Brunelle, expulso por uso excessivo de entorpecentes. Então o álbum foi gravado pelos três membros restantes.

A banda, que se resumia ao baixista/ vocalista David Vincent, o baterista Pete Sandoval e o guitarrista/ tecladista Trey Azagthoth, se reuniu no icônico Morrisound Recording, na Flórida. Para a produção, eles trouxeram o dinamarquês Flemming Rasmussen, sim, o mesmo responsável por três dos principais álbuns do Metallica, “Ride the Lightning“, “Master of Puppets” e “… And Justice for All“. Eles permaneceram trancafiados no estúdio entre os meses de janeiro e março de 1993, saindo de lá com esta pérola do Death Metal. Rasmussen e a banda levaram o material gravado para a Dinamarca, para a mixagem. E David Vincent explicou a escolha pelo produtor para também fazer a mixagem. Aspas para o ex-frontman:

“Queríamos uma abordagem diferente e Flemming provou ser um prazer trabalhar com ele. Além disso, ele estava lá desde o início. Ele até chegou mais cedo do que o programado para poder assistir a alguns de nossos ensaios antes de entrarmos no estúdio. No final das contas, ele acabou sendo bastante meticuloso, especialmente em como a bateria deveria soar. Então fizemos os vocais e as guitarras por conta própria e Trey e eu voamos para Copenhague para mixar tudo com ele.”

Na parte lírica, a banda optou por temas como o ocultismo, satanismo teísta, religião suméria e filosofia nietzschiana. As letras foram quase todas escritas por Dave Vincent, à exceção de “Angel of Disease“, de autoria de Trey Azagthoth. Essa música foi escrita originalmente em 1985, para a demo “Abominations of Desolation” e jamais lançada até o ano de 1991. Segundo David Vincent, a música que abre o play, “Rapture“, foi a primeira música a ser escrita e ela deu o norte para o restante do álbum.

Na parte musical, temos dez músicas esmagadas em 41 minutos de puro massacre que o trio proporcionou, fazendo deste um dos grandes clássicos do Death Metal. Difícil destacar alguma música, pois do início ao fim ele é cativante e é um desafio manter o pescoço inerte durante toda a sua audição. As linhas de guitarras extremamente complexas de Trey Azagthoth, aliadas às batidas insanas de Pete Sandoval, que é uma das referências eternas do estilo e o vocal doentio de David Vincent, mostram o porquê “Covenant” é tão cultuado por onze entre dez fãs do estilo. Você termina de ouvir o play e pergunta pela placa da carreta que te atropelou.

As faixas “Rapture” e “Vengeance is Mine” fizeram parte da trilha sonora do filme “Night of the Demons 2“, de 1994, dirigido por Brian Trenchard-Smith. Um videoclipe produzido pela banda para a faixa “God of Emptiness“, estrelou na MTV nos programas “Headbangers Ball” (equivalente ao nosso “Fúria Metal”) e também no programa “Beavis and Butt-Head“, o que ajudou o álbum a ser o detentor do título de “mais vendido da história do Death Metal”.

O sucesso comercial (que não chegou a ser um “Back in Black” do AC/DC ou mesmo um “The Dark Side of the Moon“, do Pink Floyd, em número de vendas), fez com que “Covenant” abrisse espaço para que outras bandas do estilo tivessem acesso a outras grandes gravadoras. A Columbia, por exemplo, tirou da Earache, bandas como o Carcass, Entombed e Napalm Death. Nenhuma delas teve o mesmo êxito que o Morbid Angel, mas tiveram mais exposição entre o grande público. Muito se questiona sobre a falta de uma maior penetração das bandas de Death Metal no mainstream, com a abertura dada por algumas grandes gravadoras e há um consenso de que o crescimento da cena Black Metal norueguesa que começava a atrair atenção de todos na época, não só pela música, mas pelos acontecimentos gerais, serviu como uma resposta a receptividade que o mainstream deu durante certo período a um estilo extremo como o Death Metal. De qualquer forma, o Morbid Angel fez bem o seu trabalho e deixou um ótimo legado com este play.

Outra coisa que a exposição do Morbid Angel ao grande público também proporcionou foi o fato de a banda ter saído em turnê com o Black Sabbath e o Motorhead. David Vincent falou certa vez sobre dar suporte para as veteranas bandas da cena:

“Conseguimos apoio da MTV e para uma turnê com o Black Sabbath e o Motörhead no início de 94 em lugares onde nunca havíamos tocado antes, enquanto uma nova onda de música agressiva estava surgindo. Acho que isso no geral, nos ajudou a alcançar um público totalmente novo. Sem o Covenant, não estaríamos onde estamos agora e estamos orgulhosos de ter resistido ao teste do tempo como aconteceu.”

Covenant” vendeu mais de 153 mil cópias somente nos Estados Unidos, o que é um número bem expressivo em se tratando de um estilo tão extremo como o Death Metal. Além disso, o álbum foi o primeiro da banda a figurar na “Billboard“, quando alcançou a 24ª posição na categoria Heatseakers, destinada aos artistas que estão emergindo. Em 2017, a Rolling Stone classificou o play na 75ª posição em sua lista dos melhores álbuns de Heavy Metal de todos os tempos.

Entre os anos de 2013 e 2014, a banda saiu em turnê e tocou o álbum na íntegra, em shows que tiveram também músicas de outros álbuns. A banda segue na ativa ainda como um power-trio, mas somente tendo em Trey Azagthoth a figura central e único membro original. Infelizmente, o Morbid Angel lançou apenas três álbuns nos últimos vinte anos e eles não apresentaram nem de longe a mesma qualidade do aniversariante do dia. Fica a nossa torcida para que eles voltem a nos brindar com um álbum a altura de sua relevância e enquanto isso não ocorre, hoje é dia de celebrar as três décadas deste álbum que é uma pintura e pode muito bem representar o Death Metal. Longa vida ao Morbid Angel.

Covenant – Morbid Angel

Data de lançamento – 22/06/1993

Gravadoras – Giant Records/ Earache

 

Faixas:

01 – Rapture

02 – Pain Divine

03 – World of Shit (The Promised Land)

04 – Vengeance is Mine

05 – Lions Den

06 – Blood on my Hands

07 – Angel of Disease

08 – Sworn to the Black

09 – Nar Mattaru

10 – God of Emptiness

 

Formação:

David Vincent – baixo/ vocal

Trey Azagthoth – guitarra/ teclado

Pete Sandoval – bateria