Há 60 anos, em 15 de abril de 1966, o The Rolling Stones lançava “Aftermath”, o quarto álbum da veterana banda britânica, e é tema do nosso Memory Remains quarta-feira.
Antigamente, era comum algumas bandas lançarem versões diferentes para o mesmo álbum e em datas diferentes. Com “Aftermath” não foi diferente. O álbum foi lançado nos Estados Unidos em 1 de julho e com uma tracklist diferente da edição britânica. Na terra natal da banda, quatro faixas foram omitidas: “Mother’s Little Helper“, “Out of Time“, “Take It or Leave It” e “What to Do”, enquanto que a faixa “Paint It Black” entrou na versão estadunidense.
Foi o primeiro álbum da banda a contar com músicas 100% autorais. Aqui, Mick Jagger e Keith Richards assumiram o protagonismo na composição das letras e músicas, enquanto que Brian Jones fez experimentos com instrumentos novos, como a cítara, o koto japonês, a marimba, além de se dedicar à guitarra e gaita.
Um ano antes, diante do aumento na popularidade da banda, Allen Klein, um empresário estadunidense ficou interessado em trabalhar com a banda e passou a representá-los nos Estados Unidos. Ele pressionou a Decca a adiantar US$1,2 milhão em royalties, o que proporcionou um momento de riqueza, e os integrantes compraram casas e carros novos.
Klein também ajudou na turnê realizada pela banda nos Estados Unidos em 1965, que havia sido a maior já feita até aquele momento, o que resultou em mais publicidade, mais dinheiro, mais fama e, claro, mais drogas, além da rivalidade com o The Beatles, que o The Rolling Stones sempre respondia em suas letras.
Mas apesar da boa fase, o clima interno não era dos melhores. Os fãs e parte da mídia viam Brian Jones como o líder da banda, condição que Jagger e Richards detestavam. Somado a isso, Jones se envolveu com a modelo alemã Anita Pallenberg. A relação tinha aspectos sadomasoquistas, e isso o encorajou a experimentar musicalmente, o que deixava o clima ainda mais tenso dentro da banda.
Para a gravação do nosso aniversariante, a banda se juntou mais uma vez ao produtor Andrew Loog Oldham e todos foram para o Studio RCA, em Hollywood, Califórnia, onde passaram dois períodos: o primeiro entre os dias 8 e 10 de dezembro de 1965 e depois entre os dias 6 e 9 de março. Foi um período rápido, totalizando uma semana de gravações.
As letras do álbum têm um caráter sombrio, se comparado aos álbuns anteriores. Mick Jagger se refere muitas vezes às mulheres de uma maneira não muito agradável, o que lhe rendeu acusações de misoginia, inclusive antes mesmo do lançamento de “Aftermath“. Ainda que parte da imprensa britânica e as fãs da banda não tenham dado muita importância para a questão misógina, chegando, inclusive, a ser defendido por algumas feministas. Anos depois, Keith Richards acabou por admitir em uma entrevista que o machismo acabou por ser tornar o cerne das letras da banda a partir de 1965. Aspas para ele:
“Tudo era um subproduto do nosso ambiente … hotéis e muitas garotas burras. Não todas burras, de forma alguma, mas era assim que se chegava. Você acabava se isolando.”
Em um primeiro momento, nosso homenageado iria se chamar “Could You Walk on the Water?“, uma sugestão do produtor Andrew Loog Oldham. Mas a gravadora rejeitou a proposta, alegando receio com relação ao que os evangélicos iriam entender como uma espécie de provocação ao episódio narrado na Bíblia onde Jesus Cristo teria andado sobre as águas. Não é de hoje que os pentecostais tentam a todo custo intervir em todas as camadas da sociedade.
Dando play na bolacha, é fácil identificar a diferença na sonoridade adotada pela banda em “Aftermath“. O Blues que era a tônica da banda deu lugar à outras vertentes, como o R&B, Country, Barroco e World Music, apareceram com maior intensidade. A versão britânica tem 14 músicas e duração de 52 minutos, enquanto que a estadunidense é mais curta: 11 faixas em 41 minutos. Os grandes destaques do álbum ficam por conta de faixas como “Paint It Black“, “Doncha Bother Me” e “It’s Not Easy“.
O álbum foi bem recebido pela imprensa e público, e rivalizou com “Blonde on Blonde” e “Revolver“, lançados poucos meses depois por Bob Dylan e The Beatles, respectivamente. Nas paradas musicais, sucesso absoluto: alcançou o topo no Reino Unido, Canadá, Alemanha e na Finlândia, além do 2° lugar na badalada “Billboard 200” e na Austrália. No ano passado, o álbum apareceu na 35ª posição nas paradas da Grécia. Foi certificado com Disco de Ouro no Reino Unido e Platina nos Estados Unidos.
“Aftermath” é o 14° álbum do The Rolling Stones com mais músicas tocadas ao vivo ao longo da história. A música “Paint It Black” é a campeã, tendo sido executada em quase 500 apresentações, inclusive, esta foi a única música do álbum a ser lembrada na última apresentação que a banda realizou, em 2024, nos Estados Unidos.
Hoje é dia de celebrar mais um aniversário deste álbum. E a banda parece ainda longe de encerrar suas atividades, na última semana, lançou o single “Rough And Twisted“”, e ao que tudo indica, virá um novo disco em breve, o 25° da carreira da banda, que não tem definição de quando voltará a se apresentar ao vivo.

Aftermath – The Rolling Stones
Data de lançamento – 15/04/1966
Gravadora – Decca
Faixas:
01 – Mother’s Little Helper
02 – Stupid Girl
03 – Lady Jane
04 – Under My Thumb
05 – Doncha Bother Me
06 – Goin’ Home
07 – Flight 505
08 – High and Dry
09 – Out of Time
10 – It’s Not Easy
11 – I Am Waiting
12 – Take It or Leave It
13 – Think
14 – What to Do
Formação:
- Mick Jagger – vocal/ percussão/ gaita em “Doncha Bother Me“
- Keith Richards – guitarra/ violão/ backing vocal
- Brian Jones – guitarra/ violão/ cítara/ marimba/ vibrafone/ koto/ saltério dos Apalaches
- Bill Wyman – baixo/ órgão/ marimba/ sinos
- Charlie Watts – bateria/ percussão/ marimba/ sinos
Participações especiais:
- Jack Nitzsche – órgão/ piano/ cravo/ percussão
- Ian Stewart – piano/ órgão