Metal e Dopamina

O peso do preconceito: Desafios e pertencimento de músicos LGBTQIA+ no Underground

O peso do preconceito: Desafios e pertencimento de músicos LGBTQIA+ no Underground

26 de agosto de 2026


O heavy metal construiu parte de sua identidade confrontando a religião, a moralidade tradicional, as autoridades, os padrões estéticos e as expectativas sociais. Fez do ruído uma linguagem, do incômodo uma estética e em sua subcultura um lugar de pertencimento. Mas “transgredir” determinadas normas não significa, necessariamente, ter abandonado todas elas.

Talvez esteja aí uma das maiores contradições do gênero: uma música capaz de formar e conduzir uma comunidade global aprendeu a desafiar o “normal” antes de aprender a questionar quem tinha o direito de ser considerado metal.

Estamos em 2026 e, sinceramente, este nem deveria mais ser um tema em disputa. O problema nunca esteve na música, no peso, na técnica ou na entrega de um artista. Está na velha ideia de que alguém precisa parecer ser ou agir de determinada maneira para pertencer ou ser aceito.

Esta reflexão surgiu do enorme desconforto que senti ao ler a quantidade de comentários homofóbicos e manifestações de ódio direcionados ao músico e produtor Marc Brito (vocalista das bandas Creatures e Hellway Train) após a publicação de um trecho recente de um podcast do canal Heavy Metal Online. Minha indignação foi ainda maior porque conheço a relevância de sua atuação no underground, além de admirar profundamente seu trabalho como artista. Uma pessoa que não está à margem da cena: ele ajuda a construí-la.

A banda Creatures. Crédito da foto: Jaqueline Souza

Felizmente, os ataques não foram a única resposta. Muitas pessoas se manifestaram em sua defesa, repudiaram os comentários preconceituosos e fizeram questão de reconhecer tanto seu talento quanto sua importância para a música e para o underground. Essa reação também precisa ser destacada, porque demonstra que existe uma parcela da cena disposta a não normalizar a intolerância e a se posicionar quando alguém é atacado por simplesmente ser quem é.

E, ainda bem, Marc continua firme e forte, produzindo, criando e fazendo sua arte. Nenhuma tentativa de reduzi-lo a um estereótipo é capaz de apagar aquilo que sua trajetória, seu trabalho e sua presença já representam.

Ainda assim, bastou que sua expressão não correspondesse ao modelo esperado por parte do público para que sua música deixasse de ser o centro da conversa. Em seu lugar, apareceram o deboche, a tentativa de deslegitimação e a violência verbal. É assim que o preconceito opera: ele desloca o julgamento da obra para a identidade de quem a produz e, em seguida, tenta transformar essa identidade em argumento contra o próprio talento.

“O metal não pode ser homofóbico. Todo mundo ama Rob Halford.” Será tão simples assim?

Uma resposta recorrente, e bastante superficial, costuma ser: “O metal não pode ser homofóbico. Todo mundo ama Rob Halford.” O problema dessa frase é usar uma exceção enorme para negar a experiência de inúmeras pessoas que não possuem o mesmo nível de exposição, a mesma trajetória ou o mesmo capital simbólico acumulado por um dos maiores vocalistas da história do heavy metal.

Rob Halford, vocalista do Judas Priest. Foto: Carlos Pupo

Rob Halford tornou pública sua homossexualidade em 1998, quando sua voz, sua imagem e sua contribuição com o Judas Priest já estavam gravadas na história do gênero. De certa forma, sua posição dizia: vocês terão de lidar com isso porque já não podem apagar o que já fiz e represento para o estilo (quase 30 anos depois continua representando).

Isso não diminui sua a coragem; ao contrário, revela o peso daquilo que ele precisou enfrentar. Durante décadas, ele viveu o conflito entre sua identidade e um ambiente marcado por códigos de masculinidade rígidos. Em entrevista publicada em 2024, ele descreveu o período anterior à revelação pública como uma “prisão do heavy metal”. Também contou que houve pouca reação negativa após o anúncio, mas reconheceu que a homofobia, o racismo e outras formas de intolerância continuam presentes. Sua experiência, não comprova a inexistência do preconceito: demonstra o alívio de romper o silêncio e, ao mesmo tempo, evidencia por que esse silêncio pareceu necessário durante tanto tempo.

Além disso, existe uma pergunta incômoda: se até um artista já consagrado temeu perder espaço ao revelar quem era, o que acontece com o músico LGBTQIA+ que ainda está começando? Quantas pessoas precisam esconder afetos, modular gestos, endurecer a própria imagem ou aceitar piadas ofensivas para não terem sua competência colocada em dúvida?

Halford não pode ser usado como álibi para absolver uma comunidade inteira. Amar um ícone gay depois que ele se tornou impossível de ignorar não equivale, automaticamente, a acolher artistas LGBTQIA+ antes da consagração.

O sociólogo britânico Keith Kahn-Harris é uma das referências fundadoras dos estudos acadêmicos sobre o metal. Fã, crítico e pesquisador da cultura do gênero desde a década de 1990, ele se dedica a investigar que tipo de comunidade se forma ao redor dessa música, quem detém poder de influência dentro dela e como autenticidade e pertencimento são negociados.

No capítulo “Coming Out: Realising the Possibilities of Metal”, publicado em Heavy Metal, Gender and Sexuality: Interdisciplinary Approaches, Kahn-Harris apresenta uma chave interpretativa especialmente útil: a tríade identitária do metal, historicamente associada ao sujeito branco, masculino e heterossexual. Essas características não precisam aparecer como uma regra escrita. Mas, durante muito tempo, elas funcionaram como um padrão implícito, com uma identidade que raramente precisa se explicar, justificar sua presença ou provar que é “metal o suficiente” para pertencer.

É nesse ponto que a discussão extrapola a música. A questão deixa de ser apenas quem toca bem ou quem conhece os bastidores e passa a envolver perguntas mais complexas: quais comportamentos são aceitos como transgressores e quais continuam sendo punidos? Quem pode brincar com o profano, o grotesco e o proibido sem ter sua autenticidade questionada? Como raça, gênero, classe e sexualidade interferem no direito de pertencer?

O metal extremo radicalizou temas como morte, blasfêmia, violência, satanismo, misantropia e outros tabus sociais. Entretanto, a mesma comunidade capaz de produzir manifestações artisticamente extremas pode permanecer bastante convencional em suas relações sociais. Essa é a contradição: ser transgressor no palco não significa ser progressista fora dele. Chocar a moral religiosa em uma letra não impede alguém de reproduzir homofobia, misoginia ou racismo no cotidiano.

Em outras palavras, a transgressão também pode ser seletiva. Algumas diferenças são celebradas porque já foram incorporadas ao repertório estético do metal; outras ainda são tratadas como ameaça quando aparecem no corpo, na voz, nos afetos ou nos gestos de pessoas reais.

Seria esta comunidade inclusiva apenas no discurso?

Costumamos repetir que o heavy metal é uma comunidade totalmente inclusiva, na qual não importam identidade sexual, aparência, cor da pele ou fé. É uma ideia bonita, e uma promessa poderosa. Mas basta o rótulo para torná-la verdadeira?

Para mim, essa inclusão fica difícil de sustentar quando integrantes da própria cena se sentem confortáveis para escrever comentários como “só faltava essa, viado headbanger” ou “a banda é legal, mas para que esses trejeitos?”. Não se trata de “mimimi”, patrulha ou falta de humor. Trata-se de compreender que a piada reiterada delimita quem pode existir sem ser reduzido a um estereótipo.

Também não basta afirmar que “cada um faz o que quiser” enquanto o preço social da diferença continua recaindo apenas sobre algumas pessoas. Respeito e inclusão verdadeiros existem quando cada indivíduo pode exercer plenamente sua identidade sem precisar camuflar quem é para ser ouvido, contratado, convidado, respeitado ou simplesmente reconhecido como parte da cena.

E o silêncio de quem presencia esses ataques também comunica alguma coisa. Quando comentários homofóbicos recebem risadas, curtidas ou nenhuma contestação, o ambiente ensina que aquele comportamento é tolerado. A cena não é construída apenas por quem sobe ao palco. Ela também é construída por quem publica, comenta, compartilha, contrata, entrevista, fotografa, abre espaço… ou decide se calar.

Seguindo a proposta editorial da coluna eu até poderia dissertar sobre o que a neurociência comportamental explica sobre preconceito e viéses cognitivos. A neurociência ajuda a compreender por que o preconceito pode surgir de forma tão rápida, mas não o apresenta como destino biológico nem como desculpa para a violência. Não existe um “centro da homofobia” no cérebro. O que há é a interação entre diferentes sistemas envolvidos em categorização social, memória, avaliação emocional, percepção de ameaça ou relevância, hábitos, tomada de decisão e controle do comportamento. Então não vou prolongar… Dizer que determinado viés pode operar de forma automática não significa dizer que ele seja natural, verdadeiro ou inevitável. Automaticidade não é inocência. O cérebro aprende com a cultura, e a cultura também é produzida por nossas escolhas, não retira a responsabilidade individual.

Preconceitos não se desfazem apenas porque nos declaramos pessoas abertas ou porque admiramos uma exceção famosa. Eles começam a ser desconstruídos quando reconhecemos o desconforto, investigamos de onde ele veio, interrompemos a repetição automática e mudamos a forma como agimos, sobretudo quando ninguém pertencente ao grupo atacado está por perto para nos cobrar coerência.

Se o heavy metal realmente pretende continuar sendo território de liberdade, autenticidade e confronto, precisa ter coragem para voltar essa força crítica contra si mesmo. Não basta desafiar deuses, governos, igrejas e padrões estéticos enquanto se preservam intactas as hierarquias que dizem quem pode ocupar o palco e de que maneira deve existir.

Talvez a transgressão mais necessária agora não esteja em produzir a imagem mais extrema, o som mais brutal ou a provocação mais ofensiva. Talvez esteja em romper com aquilo que aprendemos a repetir sem pensar. Porque uma comunidade só se torna verdadeiramente forte quando ninguém precisa diminuir, esconder ou deformar a própria identidade para pertencer a ela. O metal não perde peso ao ampliar seu espaço; apenas rompe as correntes do preconceito, que jamais deveriam ter feito parte de sua essência.

Referências:

AMODIO, David M. The neuroscience of prejudice and stereotyping. Nature Reviews Neuroscience, v. 15, p. 670–682, 2014.
AMODIO, David M.; CIKARA, Mina. The Social Neuroscience of Prejudice. Annual Review of Psychology, v. 72, p. 439–469, 2021.
HEESCH, Florian; SCOTT, Niall (orgs.). Heavy Metal, Gender and Sexuality: Interdisciplinary Approaches. Abingdon: Routledge, 2016. 282 p. ISBN 9781472424792.
KAHN-HARRIS, Keith. “Coming Out”: Realising the Possibilities of Metal. In: HEESCH, Florian; SCOTT, Niall (orgs.). Heavy Metal, Gender and Sexuality: Interdisciplinary Approaches. Abingdon: Routledge, 2016, p. 26–38.
VAN BAVEL, Jay J.; PACKER, Dominic J.; CUNNINGHAM, William A. The Neural Substrates of In-Group Bias: A Functional Magnetic Resonance Imaging Investigation. Psychological Science, v. 19, n. 11, p. 1131–1139, 2008.