Memory Remains

Memory Remains: Pearl Jam – 30 anos de “No Code” e a crise que quase acabou com a banda

Memory Remains: Pearl Jam – 30 anos de “No Code” e a crise que quase acabou com a banda

27 de agosto de 2026


Podemos dizer que o 27 de agosto é um dia especial para o Pearl Jam, uma vez que além de “Ten”, o debut da banda, “No Code”, o quarto disco da banda, também foi lançado nesta data, há 30 anos e é tema do nosso Memory Remains desta quinta-feira.

Embora seja um dos trabalhos menos inspirados da banda, devido a vários acontecimentos que falaremos deles mais abaixo, este disco marca um novo passo na carreira do quinteto de Seattle, que estava envolto com seus conflitos e não sabendo lidar com a fama que os três primeiros álbuns lhes deu.

A banda vivia seu inferno astral: demissão do baterista Dave Abbruzzeze. Segundo a banda, este não estaria sabendo lidar com o sucesso. Seja lá o que esta explicação evasiva signifique, o fato é que a banda estava abrindo mão do melhor baterista que já passou em seu lineup. A demissão de Dave ocorreu ainda durante as gravações do anterior, “Vitalogy”, e em seu lugar, Jack Irons acabou aceitando o convite que lhe era feito desde os primórdios da banda.

Some-se à mudança no lineup as tentativas frustradas da banda em se auto-sabotar: os caras estavam insatisfeitos com todo o sucesso e notoriedade que ganharam desde o disco de estreia. Então, não produziam mais videoclipes, haviam decretado boicote aos órgãos de imprensa especializados e o mais grave: simplesmente decidiram bater de frente com a Ticketmaster, a empresa que comercializava mais de 95% dos ingressos das casas de espetáculos dos Estados Unidos. A banda sobreviveu a isso tudo, sabe-se lá como.

Para completar, havia um clima de animosidade entre eles. Eddie Vedder, principal letrista, queria tomar as rédeas do grupo, o que quase pôs fim à banda, como veio à tona anos mais tarde, no documentário “Twenty”. Jeff Ament se demonstrou muito incomodado e chegou a considerar sair da banda que ele próprio havia fundado. Mas haviam boas notícias também: neste período, o Pearl Jam foi convidado para ser a banda de apoio de Neil Young. A parceria rendeu o ótimo “Mirrorball” e a banda lançou um single, chamado “Merkinball”, gravado durante as sessões com o músico canadense. Isso servia para matar um pouco da ansiedade entre os fãs por um material inédito,

Enquanto excursionavam com Neil Young, eles aproveitavam as pausas para compôr e gravar o aniversariante de hoje. Foram utilizados três estúdios em cidades extremamente distantes umas das outras: o “Chicago Recording Company”, que como o nome sugere, fica em Chicago; o “Kingsway Studio”, em New Orleans, além do “Studio Litho”, em Seattle, cidade natal da banda. Novamente com a produção do velho parceiro, Brendan O’Brien. As sessões duraram dez meses, entre julho de 1995 e maio de 1996.

Hora de dar play na bolacha e o Pearl Jam nos trouxe uma nova sonoridade, repleta de novas influências e muito experimentalismo. O Rock de garagem é bem abrangente, mas podemos notar traços de Folk, Progressivo, World Music e o Punk Rock de vez quando dão as caras. Temos doze faixas em 49 minutos, com destaques para “Hail Hail“, “Smile“, “Habit“, “Red Mosquito“, “Lukin“, e “Mankind“, esta última, cantada pelo guitarrista Stone Gossard.

Uma curiosidade sobre a música “Lukin”, que é uma referência ao ex-baixista do Mudhoney e Melvins, Matt Lukin. Trata-se de uma história real de assédio que Eddie Vedder sofria por parte de uma pessoa que tinha distúrbios mentais, e sempre que ele sentia a sua segurança ameaçada, ele e sua então esposa, Beth, ficavam na casa de Matt Lukin.

Temos um disco com alguns bons momentos, talvez refletido pelo inferno astral que a banda vivia naquela época. Não é um álbum fácil de se ouvir, e é preciso ouvir muitas vezes para poder compreendê-lo melhor. Ele tem um pouco do disco anterior, como faixas mais Punks e muito de experimentalismo, numa tentativa de se distanciar cada vez mais do que foi produzido nos dois primeiros álbuns. Era notória a tentativa da banda de se lançar em outros caminhos. O futuro mostrou que a iniciativa, embora equivocada, surtiu resultados: o quinteto tornou-se ainda maior e tocaria cada vez mais em grandes arenas.

Se “No Code” foi o terceiro álbum seguido da banda a alcançar o topo da “Billboard” logo de cara, a insatisfação dos fãs também foi instantânea e logo o disco foi despencando neste chart e foi o primeiro disco da banda a não ser certificado com multi-platina. O álbum também alcançou o topo em países como Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Portugal e Suécia, além de 3º lugar na Áustria, Irlanda, Noruega e Reino Unido. Foi certificado com disco de Ouro no Reino Unido, Platina nos Estados Unidos e Nova Zelândia e duplo Platina no Canadá e Austrália.

Enquanto musicalmente o álbum não agrada muito, ponto para os caras na arte da capa, feita pelo trio Eddie Vedder, Mike McCreaddy e Jeff Ament, em que é formada por um conjunto de 144 fotos Polaroid, que se parecem aleatórias. Dentro de cada cópia foram espalhados algumas destas fotos, contendo letras das músicas no verso, de maneira que, quem quiser ter todos, terá que comprar várias cópias e contar com a sorte. Não é novidade esse tipo de ação, o Led Zeppelin já tinha feito algo parecido em “In Through the Out Door”, de 1979 com imagens diferentes de um mesmo bar, espalhadas pelas cópias do álbum.

Como a banda tinha problemas para tocar nos Estados Unidos, a saída foi fazer turnês no restante da América do Norte e também na Europa. Tempos depois, eles iriam reconsiderar o boicote à Ticketmaster e voltariam a tocar nas casas operadas por esta empresa, para alívio dos fãs que estavam bastante insatisfeitos, Em 17 de outubro de 2014, eles tocaram o aniversariante do dia na íntegra, durante uma apresentação no estado de Illinois, como parte de seu extenso setlist.

Enfim, é um álbum que tem a sua importância mais pelo contexto histórico do que pela parte musical, é bem verdade, mas que vale a pena ser contado aqui. Obviamente que os fãs mais saudosistas como este redator que vos escreve irá torcer o nariz para este play, o Pearl Jam cometeu sim, alguns equívocos ao longo de sua longa carreira, mas é um exemplo de banda que se tornou gigante, mesmo dando murros em ponta de faca em diversos momentos. Eles seguem na ativa, fazendo discos e principalmente, passando ao mundo uma mensagem positiva, na tentativa de conscientizar as pessoas sobre o futuro do nosso planeta. Em 27 de setembro, a banda irá se apresentar no Ohana Festival, quando será conhecido o baterista que vai ocupar o posto que foi de Matt Cameron por 28 anos. Aguardemos.

No Code – Pearl Jam

Data de lançamento – 27/08/1996

Gravadora – Epic

 

Faixas:

01 – Sometimes

02 – Hail Hail

03 – Who You Are

04 – In My Tree

05 – Smile

06 – Off he Goes

07 – Habit

08 – Red Mosquito

09 – Lukin

10 – Present Tense

11 – Mankind

12 – I’m Open

13 – Around the Bend

 

Formação:

  • Eddie Vedder – vocal/ guitarra/ cítara elétrica/ gaita e fotos Polaroid da capa
  • Stone Gossard – guitarra/ vocal em “Mankind”/ piano
  • Jeff Ament – baixo/ guitarra em “Smile”/ chapnam/ Polaroids em preto e branco
  • Mike McCreaddy – guitarra/ piano em “Sometimes”/ Polaroid
  • Jack Irons – bateria

 

Participação especial:

  • Brendan O’Brian – Piano