O Beyond Disdain transforma temas como luto, memória, perda e sobrevivência em matéria-prima para ‘Till Death Parts Us’, segundo álbum da banda de hard rock de Miami. Lançado em 21 de agosto pela Retro Modern Records, o disco reúne 18 faixas e cerca de 81 minutos de música. O novo disco chega lapidando um som que mistura diversas referências e traz um som nostálgico, moderno e cheio de peso. Não à toa, o disco é a prova de que a banda encara o metal como laboratório: energia crua, precisão técnica e uma boa dose de cinismo embalada em riffs e dinâmicas que soam contemporâneas, mas também reverenciam o passado.
Mais do que uma sequência de singles, o trabalho funciona como um registro extenso de uma banda interessada em explorar diferentes lados do rock alternativo. As guitarras pesadas dividem espaço com vocais marcados por uma interpretação sombria, enquanto a produção amplia o caráter dramático das composições.
Com 18 faixas, ‘Till Death Parts Us’ está longe de ser um álbum econômico. São 81 minutos que colocam o ouvinte diante de uma quantidade considerável de material. Essa duração permite que o Beyond Disdain desenvolva sua proposta com mais espaço, mas também torna a experiência menos imediata. O disco funciona melhor quando ouvido como um conjunto, especialmente para quem se interessa pelo lado mais emocional do rock alternativo.
A produção fica por conta da própria dupla responsável pelo projeto: Shana e Trevor Anderson, mãe e filho. A parceria também está presente na composição das músicas, dando ao álbum uma característica particularmente pessoal. Mãe e filho escreveram e produziram o disco, com instrumentos reais e mizagem profissiona, entretanto, os vocais são de uma voz criada por inteligência artificial, Selene Calder, identificada e creditada em todas as faixas.
A abertura com “The Lies Beneath” é um convite para o mundo pesado e sombrio de Shana e Trevor Anderson, com riffs pesados, pianos assombrosos e vocais intensos (que talvez por ser de AI nota-se que é muito comum e similiar a muitos outros do estilo). A canção mantém o ritmo cadenciado e grave, emulando o som melódico e distorcido do metal alternativo – lembrando muito We Are the Fallen, Evanescence.
A faixa “Lost Inside The Sound” chama atenção por ser a mais ouvida do projeto, ultrapassando 2 milhões no Spotify. Segundo os dados divulgados pela banda, suas músicas ultrapassaram 20 milhões de reproduções em plataformas durante o primeiro ano. Essa um balada inusitada, que surpreende com riffs sinuosos e densos, que arrastam o ouvinte em uma viagem com vocais angustiados mas com toda beleza sombria que a banda criou, além de que souberam utilizar a técnica clássica mas incorporar tons modernos. Aqui a banda está mais forte do que nunca para expressar sua dor e dilui as fronteiras entre narrativa e virtuosismo musical.
O Beyond Disdain usa o segundo trabalho para ampliar a própria identidade, apostando em uma abordagem mais sombria e cinematográfica sem abandonar as melodias que aproximaram a banda do hard rock, como vemos na “Bleeding Ever After”, que também chega em tom de balada melódica e cheia de sentimentos sombrios.
Beyond Disdain dialoga diretamente com uma fase do rock alternativo que ganhou força no início dos anos 2000, mas não depende apenas da nostalgia para funcionar. Eles utilizam as referências do passado mas acrescentam seus próprios temperos. A banda pega elementos reconhecíveis daquele período — riffs pesados, vocais dramáticos, refrões melódicos e contrastes entre delicadeza e agressividade — e os organiza em torno de uma narrativa centrada em perda e sobrevivência, como nas músicas “Marionette”, “Checkmate” (nitidamente inspirada no metal alternativo dos anos 2000) e “Fragments”.
Entre as outras músicas do álbum, “Long Way Home” aparece como faixa-foco e resume boa parte da identidade apresentada pelo Beyond Disdain. A canção combina a força das guitarras com uma abordagem mais melódica, mantendo o equilíbrio entre hard rock e metal alternativo que conduz o disco.
‘Till Death Parts Us’ não parece interessado em apresentar uma coleção de músicas isoladas, mas em construir uma sequência guiada por temas recorrentes. Luto, lembranças, obsessão e a tentativa de seguir em frente aparecem sob diferentes perspectivas. Essa repetição temática dá unidade ao disco, mesmo com sua duração extensa.
“Mirage” também chama atenção pelo dueto com vocais masculinos e guturais, entrega um tom mais moderno do metal alternativo. Um ponto interessante é o detalhe de ouvirmos os trastejos dos dedos escorregando nas cordas distorcidas, que criam ruídos agudos e enfatizam ainda mais a violência do som. Há um melodia mais moderna e totalmente diferenciada, com bateria em breakdowns e baixo pulsante. É a música que mais gostei.
Encerrando essa viagem sonora, a faixa-título parece sugestiva e uma ótima maneira de encerramento. A faixa começa suave, com tons de pop nos vocais mas como esperado, continua a brutalidade e explode de agressividade e riffs sinuosos que vem e voltam e convidam a todos para saborar o contraste entre beleza e lamentação. Aqui sentimos muita influência do metal moderno nos vocais, nos riffs e com tons mais eletrônicos em uma tempestade sonora, tornando-se a faixa perfeita para um show cheio.
No entanto, é importante notar que Beyond Disdain não se aventura muito além dos limites do estilo tradicional de metal melódico. O grupo pisa no freio quando o assunto é criar melodias mais inovadoras e não convencionais. Isso resulta em um som que, embora bem executado e fiel às raízes do gênero, não oferece grandes surpresas ou inovação. Mas é inegável o investimento para produzir um disco de alto padrão, além do talento dos músicos na composição e letras.