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Manger Cadavre? lança clipe de “Obsolescência Programada” gravado nas ruínas da Tecelagem Parayba

Manger Cadavre? lança clipe de “Obsolescência Programada” gravado nas ruínas da Tecelagem Parayba

8 de setembro de 2026


A Manger Cadavre? lançou o videoclipe de “Obsolescência Programada”, faixa que integra o álbum “Como Nascem os Monstros”. O vídeo foi gravado nas ruínas da antiga Tecelagem Parayba, em São José dos Campos (SP), e utiliza uma estética inspirada na linguagem audiovisual dos anos 1990, com imagens captadas por handycams antigas.

Produzido por Gustavo Rodrigues, o clipe é dividido em duas partes. Na primeira, um explorador percorre as ruínas da Tecelagem Parayba, em uma investigação sobre o processo que levou um dos maiores complexos industriais de São José dos Campos à obsolescência.

O cenário estabelece uma relação direta com a temática da música. O local, que já foi símbolo de produção e trabalho, aparece no vídeo como vestígio de um modelo econômico que deixou de existir.

Na segunda parte, o personagem é transportado das ruínas para um encontro com a banda. As cenas foram gravadas no Hocus Pocus Estúdio, também em São José dos Campos, com o uso de chroma key. A saturação das cores cria uma ambientação artificial que acompanha a sonoridade da faixa.

A escolha por uma estética associada a recursos considerados ultrapassados também integra o conceito do trabalho. Segundo a banda, a utilização de elementos dos anos 1990 serve como crítica à padronização estética provocada pelas novas tecnologias.

“A gente está vivendo uma época em que cartazes de shows estão sendo feitos com IA com uma estética padrão, clipes e filmes estão deixando de produzir efeitos materiais para usar o CGI de forma plástica, sem emoção. Fotos estão sendo tratadas com IA, fazendo correções de ‘imperfeições’ no rosto das pessoas. E a gente não curte nada disso. Retroceder para uma estética em que a tecnologia estava começando a existir nos clipes, mas em que a escolha do editor era essencial, é uma crítica à superficialidade da perfeição produzida pela inteligência que aniquila a originalidade”, comenta a banda.

Trabalhador como produto descartável

Em “Obsolescência Programada”, a Manger Cadavre? utiliza um conceito relacionado à indústria e ao consumo para abordar questões como trabalho, exploração, desigualdade econômica e dependência. A letra apresenta uma crítica a um modelo baseado na produção descartável, no consumo compulsório e na exploração da mão de obra barata.

Nesse contexto, a obsolescência também passa a representar a condição do trabalhador, tratado como uma peça que pode ser substituída. A música aborda ainda o medo do desemprego e a insegurança diante da possibilidade constante de perder o trabalho.

Para Nata, vocalista da banda, a discussão também se relaciona às transformações atuais nas relações de trabalho.

“Em época de pejotização, em que boa parte dos trabalhadores não possui direitos e garantias sociais, a insegurança é algo constante no dia a dia. A letra dessa faixa possui algumas camadas, que somam essas três linhas de interpretação”, explica.

A composição da letra começou durante a primeira turnê europeia da banda. Nata conta que escreveu o texto enquanto estava no telhado de um prédio em Berlim. O instrumental já estava pronto, com referências a Bolt Thrower, Carcass e ao death metal dos anos 1990 nas cordas, além da influência do hardcore crust na bateria.

A ideia para a letra surgiu depois de uma situação envolvendo diferenças de preços e qualidade entre produtos encontrados no Brasil e na Europa.

“Eu tinha acabado de preparar um almoço para cinco pessoas, com ingredientes que no Brasil não teria gastado menos de R$ 200 e, lá, gastei cerca de 8 euros, o equivalente a R$ 60 na época. Quando li na embalagem da passata, que no Brasil é vendida como um molho de tomate especial e lá é simplesmente molho, que os tomates haviam sido cultivados no Brasil, aquilo me chamou atenção”, relata.

O episódio ocorreu durante um período de alta do café e de forte exportação de commodities brasileiras. Nata também observou as diferenças na qualidade e na tecnologia dos produtos cotidianos encontrados na Europa.

“Era a mesma época da alta do café, pois estávamos exportando tudo e tínhamos que consumir a pior qualidade do que sobrava e pagávamos caríssimo por ele. Ao mesmo tempo, eu ainda estava impactada ao ver a tecnologia e a qualidade das coisas comuns do dia a dia, que lá são absurdamente melhores que as nossas. O sentimento era de choque de realidade: nunca deixamos de ser colônia”, conclui Nata.

“Como Nascem os Monstros”

“Obsolescência Programada” faz parte de “Como Nascem os Monstros”, álbum conceitual da Manger Cadavre? que aborda diferentes manifestações do medo, passando por questões individuais e coletivas.

Na faixa, o medo está relacionado à precarização da vida, ao desemprego e à insegurança provocada pela possibilidade de substituição. O conceito de obsolescência é ampliado para além dos produtos, colocando o próprio trabalhador dentro de uma lógica de descarte.

Em 2026, a Manger Cadavre? completa 15 anos de atividade. Formada em São José dos Campos, a banda tem em sua formação Nata de Lima (vocal), Marcelo Kruszynski (bateria), Paulo Alexandre (guitarra) e Bruno Henrique (baixo).

O grupo já realizou turnês por diferentes regiões do Brasil e participou de festivais como Abril Pro Rock. Em 2024, a banda se apresentou no Obscene Extreme, na República Tcheca, além de realizar outras datas pela Europa. Em 2025, saiu em turnê de divulgação de “Como Nascem os Monstros”.

A sonoridade da Manger Cadavre? combina elementos de diferentes vertentes do metal extremo, com destaque para death crust e hardcore.

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