Surgido na Inglaterra no início da década de 1990, o britpop celebrou a identidade britânica em contraponto ao grunge estadunidense. Dentro desse cenário, o Blur representava a classe média artística londrina, enquanto o Oasis vinha do norte da Inglaterra para representar a classe trabalhadora. Sempre arrogantes e destilando sarcasmo, apostaram em um rock mais direto, com canções que viraram verdadeiros hinos de estádio — como esquecer a torcida inglesa cantando “Wonderwall” na última Copa do Mundo?
Enquanto a banda crescia, a convivência entre Liam e Noel piorava. A ruptura definitiva ocorreu antes de um show em Paris, em 2009, o que resultou no cancelamento da apresentação e dos demais shows, além do fim do Oasis.
Durante todos esses anos, Liam e Noel seguiram com suas carreiras musicais e continuaram a direcionar declarações irônicas através da imprensa, embora sempre pairasse no ar um possível retorno do Oasis. Liam chegou a publicar em 2023 que, se o Manchester City (clube pelo qual ambos são torcedores fanáticos) ganhasse a Champions League, ligaria para Noel e traria a banda de volta. De qualquer forma, o City acabou campeão e, pouco mais de um ano após, foi anunciado o retorno do Oasis para uma sequência de shows em 2025.
Dirigido por Will Lovelace e Dylan Southern, “Don’t Look Back in Anger” traça a trajetória dessa reunião. Logo no início, o filme usa um pouco de ironia para mostrar a banda ensaiando, já que Liam não aparece no princípio dos trabalhos no estúdio. Essa situação – que brinca com as várias vezes que Noel chamou o irmão de antiprofissional e com declarações de Liam de que não era muito chegado em ensaiar – deixa claro que ambos não perderam o sarcasmo e a ironia, mas trazem uma certa dose de sabedoria. Com os dois na casa dos cinquenta anos, Liam, sempre brincalhão, trata de assuntos mais sérios. Enquanto isso, Noel se abre mais emocionalmente: ele chega a colocar o retorno da banda em dúvida – opinião que muda no decorrer da turnê – e diz que, enfim, os filhos deles se conhecem, mostrando que a separação se estendeu ao âmbito familiar. Essa paz reinante entre ambos é bem explorada, destacando-se a entrada deles nos shows com os braços juntos no alto.
Pode-se argumentar que o documentário evita abordar situações sensíveis, como os motivos que levaram à separação em 2009. Por mais que esse questionamento seja válido, a intenção nunca foi aprofundar esses temas. Aliás, além dos irmãos, tanto os músicos do passado quanto os do presente são pouco mencionados. A volta de Paul “Bonehead” Arthurs, guitarrista original que deixou a banda em 1998, é festejada, mas não há nenhum questionamento sobre o motivo de sua saída e nem pronunciamento por parte dele. O único músico a ganhar destaque é Gary “Mani” Mounfield, baixista do Stone Roses, falecido em 20/11/2025, que recebeu uma homenagem sincera.
Musicalmente, as canções são apresentadas de forma reduzida, com closes do público e da banda, intercalados com depoimentos dos irmãos e fãs. O filme transmite com habilidade o impacto que a música teve na vida das pessoas. Há desde fãs mais antigos até mais recentes, mostrando que a banda passou de geração para geração, além de casos singulares, como um torcedor de futebol argentino que adaptou a letra de “Wonderwall” para homenagear o San Lorenzo e uma brasileira que batizou seu cachorro com o nome de Bonehead. Algumas declarações soam exageradas – como ‘quando o Oasis acabou, foi como se meu filho tivesse morrido’ -, mas a maioria é genuína, com fãs se emocionando em todos os lugares por onde a turnê passou.
Com o Oasis prestes a anunciar uma nova turnê para 2027, “Don’t Look Back in Anger” é um presente para os fãs ‘que nunca abandonaram a banda’ e mantêm seu nome em evidência – e nada poderia ser mais adequado do que o título “Não Olhe para Trás com Raiva” para toda a história vivida pelo grupo.
