Uma viola caipira abre o caminho. Aos poucos, o dedilhado de ‘Vida no Campo’ entra num ambiente etéreo, atravessa ruídos de aparência industrial e desemboca num riff de violoncelo acompanhado por um coro de vozes femininas. É assim que começa ‘Sonora Fantasma te ama’, segundo álbum da Sonora Fantasma, banda idealizada pelo pelo cineasta e músico Diego da Costa (diretor de Selvagem, um dos 15 longas que disputaram a indicação brasileira ao Oscar 2022 e Dona Elza, telefilme produzido pela Rede Globo e exibido na Tela Quente).
Ouça aqui: sonorafantasma.bandcamp.com/album/sonora-fantasma-te-ama
O título é uma construção intimista que Diego vislumbra para o mundo: o amor depende da presença. Em um cotidiano conduzido pelo isolamento, pelas telas e pela busca individual por desempenho, o músico procura o contato que acontece quando as pessoas dividem um espaço, uma conversa ou um palco.
O coração estampado na capa concentra esse movimento e acompanha um repertório construído em torno de afetos, cuidados e conexões.
“Gravar e lançar álbuns se tornou muito mais acessível, de fato. Mas gravar para contabilizar play está longe de ser um desejo. Nosso desejo reside na presença, no contato, no calor humano em lidar com as nossas e outras vontades, os perrengues e as coisas boas”, afirma Diego.
As oito faixas observam as relações a partir de perdas, medos, corações partidos, despedidas e da dificuldade de encontrar um lugar ao qual retornar.
O amor do título convive com essas ausências, aparece nos vínculos que permanecem, nas amizades recuperadas pela música e na tentativa de se aproximar novamente das pessoas, da terra e da própria história.
“É um álbum muito intimista, que busca tratar das relações entre pessoas. Fala de luto, fala de amor, fala de medos, de cuidados, mas talvez isso seja muito político também hoje, né. Talvez tratar dessas relações e tratar dessas dores tem sido uma coisa importante, num contexto em que estamos hiper atomizados e completamente individualizados”, diz.
A busca por presença também determina a construção musical. Produzido por Diego da Costa e Rafael Sartori, Sonora Fantasma te ama aproxima o rock alternativo de elementos da música brasileira sem transformar essas referências em ornamento. Viola caipira, samba, bossa nova, coros, metais, cordas, guitarras, sintetizadores e programações ocupam o mesmo repertório.
Rafael Sartori assina os arranjos, a gravação e a mixagem. Luisa Toller criou os arranjos vocais de “Vida no Campo”, “O Brilho das Pedras”, “Depois do Fim” e “Até Amanhã” e regeu parte do grupo Vozeiral que participa dos coros. A preparação vocal de Diego ficou por conta de Paula Caju. As gravações ainda recebem Dann Carvalho na bateria, Giovanna Lelis Airoldi no violoncelo, Raphael Sampaio no trompete e Feldeman Oliveira no trombone.
O percurso iniciado por “Vida no Campo” estabelece uma das ligações centrais do álbum. A viola remete ao interior e ao rock rural, enquanto sintetizadores, ruídos e mudanças de intensidade retiram a canção de qualquer tentativa de reprodução nostálgica. O campo aparece como memória, ambiente sonoro e possível lugar de pertencimento.
E continua em “O Brilho das Pedras”, composição de Sá, Rodrix e Guarabyra incluída originalmente no álbum Terra, de 1973. A primeira versão gravada pela Sonora Fantasma leva a música para outro arranjo, com uma batida de funk nos versos e um encerramento mais pesado. A escolha recupera uma referência fundamental para Diego, que cresceu em Socorro, estudou no interior e iniciou sua trajetória no cinema entre Campinas e Paulínia.
“É importante reverenciar os mestres do passado, a nossa cultura brasileira e saber de onde viemos”, afirma.
A Sonora Fantasma parte da obra de Sá, Rodrix e Guarabyra para pensar como uma geração atual pode reconhecer a tradição brasileira e, ao mesmo tempo, construir novos arranjos, timbres e formas de circulação.
“Depois do Fim” percorre o caminho inverso entre as linguagens de Diego. Composta originalmente para Dona Elza, telefilme que ele dirigiu com Hiro Ishikawa, a música ganha uma versão própria dentro da Sonora Fantasma. O novo arranjo desloca a canção para o ambiente do álbum e reforça a ligação entre cinema, composição e experiências pessoais.
O repertório passa ainda por “Chegada”, “Corações Atravessados” e “Cachorros Dançantes”. Em “Bebidas e Defumações”, uma balada conduzida pelo piano atravessa referências de Fugazi, Radiohead e Blur, entra num blues guiado pelo trompete e termina em um samba de gafieira. As mudanças internas da faixa sintetizam um disco que evita permanecer em um único gênero.
A variedade é um fio, inconstante, sem pudor, mesmo, entre cada uma das canções, a linearidade não cabe aqui. Viola, violoncelo, metais, vozes e instrumentos elétricos reaparecem em diferentes combinações, enquanto as letras retornam ao desejo de pertencimento e às marcas deixadas pelos encontros em um disco pensado para soar limpo e preenchido, com a doce sutileza dos deslizes, por que não?, com arranjos vocais e instrumentais inspirados pelo trabalho de estúdio presente em álbuns brasileiros da década de 1970.
Da ocupação cultural à Sonora Fantasma
A história musical de Diego começou na adolescência, quando aprendeu guitarra e violão e formou a Lazo Black em Socorro. Diante da falta de espaços para bandas autorais e outras expressões artísticas, ele e os amigos ocuparam um imóvel prometido havia anos como futuro centro cultural da cidade.
O espaço foi limpo e passou a receber saraus com bandas, artistas plásticos, poesia e comércio local. Foram realizadas seis edições até a interdição do imóvel pela Secretaria de Cultura. Anos depois, o centro cultural seria instalado naquele mesmo endereço. A experiência aproximou Diego da criação coletiva e da ideia de que uma obra se completa quando encontra outras pessoas.
Depois de estudar Midialogia na Unicamp, ele integrou as bandas Nuvens Invisíveis e Mochila de Criança em Campinas. O audiovisual tornou-se sua atividade profissional, mas a composição permaneceu como uma forma de expressão. A Sonora Fantasma surgiu quando Diego voltou a escrever canções e encontrou em Rafael Sartori, antigo companheiro da Lazo Black, o parceiro para produzi-las.
O projeto foi pensado para continuar em diferentes formações e circunstâncias, com Diego sozinho ou acompanhado por outros músicos. O ponto permanente é o palco. Essa escolha reaparece em Sonora Fantasma te ama, álbum gravado com uma rede de músicos, arranjadores e colaboradores e orientado pelo desejo de circular e tocar ao vivo.
“A verdade é que apesar da minha carreira já consolidada no audiovisual, com filme lançado no cinema, na globo e com a qual eu sigo firme, com 43 anos nas costas, eu entendi que o que me dá mais prazer e que gostaria de seguir fazendo da minha vida é fazer música e tocar com outras pessoas e mostrar músicas para mais pessoas”, diz Diego.

Ficha técnica de Sonora Fantasma te ama
Lançamento: 17 de setembro de 2026
Faixas:
1. Vida no Campo
2. Chegada
3. O Brilho das Pedras
4. Depois do Fim
5. Até Amanhã
6. Corações Atravessados
7. Cachorros Dançantes
8. Bebidas e Defumações
Composição: Diego da Costa
Produção: Diego da Costa e Rafael Sartori
Arranjos: Rafael Sartori
Arranjos vocais: Luisa Toller, em “Vida no Campo”, “O Brilho das Pedras”, “Depois do Fim” e “Até Amanhã”
Preparação vocal: Paula Caju
Gravação e mixagem: Rafael Sartori
Masterização: Alejandra Luciani
Capa e identidade visual: Felipe Teixeira
Arte da capa: Liz Medeiros
Todas as faixas foram gravadas e mixadas no estúdio Regina Horizonte, em Socorro, São Paulo. Vozes, coro, bateria, violoncelo e metais foram gravados no estúdio Juá, em São Paulo. O álbum foi masterizado no Sugarkane Audio.
Participações:
Luisa Toller: arranjos vocais
Luisa Toller, Daniela Alarcon, Raíça Augusto, Val Kimachi: coro.
Dann Carvalho: bateria
Giovanna Lelis Airoldi: violoncelo
Raphael Sampaio: trompete
Feldeman Oliveira: trombone

Crédito: Iago Mati
A banda
Influenciado pelo rock alternativo do final dos anos 90, início dos 2000, Sonora Fantasma traz nas texturas de guitarras e sintetizadores, um convite para imersão a sonoridades que despertam o lúdico.
A banda foi idealizada pelo fazedor de filmes Diego da Costa, que já passou por bandas do interior de São Paulo como Lazo Black, Nuvens Invisíveis e Mochila de Criança.
Colagens, texturas, fragmentos, arte, possibilidades e a potência da imaginação de tempos esperançosos dão o tom do primeiro álbum, Adeus Mundo Veio, de 2021. Ouça aqui: https://tratore.ffm.to/adeusmundoveio.
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