Resenhas

A Wink Is As Good As A Nod To A Blind Mule

David Moore

Avaliação

8.0

Alguns discos nascem de uma ideia. Outros carregam uma história inteira antes mesmo de chegarem ao público. ‘A Wink Is As Good As A Nod To A Blind Mule’, de David Moore, lançado na úllima quarta-feira, 02 de setembro, pertence à segunda categoria. O álbum foi construído como uma homenagem a James Masters Patterson, músico que escreveu, coescreveu e serviu de inspiração para todas as faixas. O título já entrega parte dessa relação. ‘A Wink Is As Good As A Nod To A Blind Mule’ remete ao senso de humor característico de Patterson, algo que Moore escolheu preservar como parte da identidade do trabalho. A homenagem, portanto, não aparece apenas nas músicas, mas também na maneira como o álbum é apresentado.

A jornada começa com “Chasing The Mothership”, uma abertura eletrizante com teclados inspirados no progressivo dos anos 70, somados a riffs secos, bateria marcada e uma produção que já escancara o tom do disco — direto, sem massagem, mas cheia de detalhes escondidos nas camadas de guitarra. Uma faixa que entrega o rock’n’roll sem firula — lembrando muito bandas como ZZ Top e The Allman Brothers Band.

Logo depois, “Miss-A-Lady” mantém o peso, agora com grooves e muitos momentos de pré-tensão: baixo pulsante,  riffs que exploram nuances e vocais que abraçam o compasso da bateria roqueira, lembrando como a escola do hard rock e progressivo pode se cruzar. Estamos na segunda faixa, mas já é notável que os riffs de guitarra irão carregar todo o disco, conduzindo-nos por essa audição gostosa. Não à toa, ‘A Wink Is As Good As A Nod To A Blind Mule’ é uma obra sombria, pesada e introspectiva, de guitarras estridentes e instrumentação psicodélica. É um som que não se perde em virtuosismo: a força está na simplicidade louca dos acordes e na intensidade da entrega, sempre mirando impacto imediato e emocional.

A produção levou quase dois anos e teve um processo pouco convencional. Moore precisou reconstruir as partes de bateria compasso por compasso, utilizando MIDI a partir de gravações anteriores. O detalhe chama atenção porque o processo foi realizado sem auxílio de inteligência artificial. Em vez de recorrer a ferramentas para reconstruir ou completar as performances, David Moore trabalhou manualmente sobre o material existente. Essa escolha dá outro peso ao resultado. O álbum não tenta criar uma versão artificial de Patterson. A proposta é preservar o que havia sido registrado e encontrar maneiras de fazer essas ideias continuarem existindo em novas gravações.

Entre as faixas, “Mysteries Of Life” surge como o momento mais forte do álbum. O motivo está no trabalho de guitarra de Jay Michael Smith, que reproduz com impressionante precisão a maneira de tocar de Patterson. A música abaixa a intensidade e entrega um clima mais southern rock com linhas de violão e swing mais elegante. A instrumentação traz algo mais regional, uma energia diferente de todo o disco. Somos surpreendidos com os riffs e solos surpreendentes que dão o toque de faixas lentas e ganham uma imensidão ao final com solo marcante e instrumentos ganhando força. O resultado ultrapassa a simples semelhança técnica. Em determinados momentos, a guitarra soa tão próxima do estilo de Jim que a ausência do músico se torna ainda mais evidente. É justamente essa contradição que torna a faixa tão marcante: a performance mantém viva uma assinatura musical que já não pode ser repetida pelo próprio dono.

“The Wizard” abaixa o tom e chega mais melancólica, como a balada do disco, e logo culminará em um refrão poderoso, que remete às raízes do country rock e seus originários. A faixa nos é apresentada com aquela vibe de jam de garagem levada ao limite, com ousadia e sentimentalismo. O maior mérito do álbum está em não transformar a homenagem em uma peça puramente nostálgica. O passado está presente em praticamente cada etapa da produção, mas o disco foi concebido no presente.

Chegando a “Love Is Blind”, o clima fica robusto e cheio de inspiração. Os riffs densos e melodias abertas se misturam, quase sempre ancorados em afinações mais graves. A bateria segue um caminho sólido e direto, priorizando batidas retas e poderosas, criando uma base quase marcial. Essa é a canção que mais remete ao rock psicodélico, com vocais mais reconfortantes. Os riffs seguem a linha em tons mais melancólicos, e é como se o cantor contasse uma história sincera e vivida por ele.

Em “Y-Grene Fosecruos Atanos”, somos novamente jogados ao peso e densidade, com riffs de energia única e uma construção em seus teclados que entrega o puro progressivo. Sem cair na pompa excessiva, a faixa conquista aqueles que apreciam o bom e velho prog, mas não é uma faixa simples para ouvir como pano de fundo; é preciso prestar atenção nos vocais que nos hipnotizam e nos riffs que querem ensinar algo.

“Bryn Mawr” traz novamente o embalo do southern rock, combinando riffs mais melódicos e simples com uma linha de baixo grave, bateria potente, os clássicos teclados do prog e vocais mais intimistas. A seguinte, “Eternal Deceiver” inicia com riffs acústicos e bateria urgente, outra faixa perfeita para trilhas sonoras que segue a mesma base das anteriores, mas com vocais inspirados em The Runaways e Suzi Quatro. Você vai ouvir e entender o que estou dizendo.

“Love Is The Victory” traz uma pegada mais sombria do progressivo com teclados mais psicodélicos dos anos 70, em que a banda usou a fórmula certa já existente e adicionou seus temperos, muito mais ácidos e saborosos. “Land Of Sunshine” entrega outra trilha sonora, de filme mais animado dos anos 70, e claro, com seu toque sentimental, com vocais em dueto charmosos. Preparando-se para o final, “That Little Funky Tune” traz mais peso com riffs de guitarra marcantes, lembrando fases de rock progressivo dos anos 70. É a música que mais gostei pela melodia. A banda criou uma arte significativa, a pura nostalgia; é como se estivéssemos ouvindo um disco de vinil dos anos 70! Segunda, “When Lightning Strikes”, que começa com linhas de violão que perfuram o ouvinte com emoção e ganham força e nostalgia.

O fechamento fica com “Time”, entrega novamente toda a energia do rock progressivo e southern rock. Técnica, ousadia, psicodelia e instrumentação de primeira linha! A última faixa do disco entrega um final que soa como uma explosão de sentimentos, voltando ao tom melódico sem perder a autenticidade grave do disco. Há uma diferença importante entre simplesmente recuperar gravações antigas e reconstruir um repertório a partir delas. Moore escolheu a segunda opção. O resultado é um trabalho que preserva a influência de Patterson sem tentar esconder as marcas do tempo ou a ausência do músico.

‘A Wink Is As Good As A Nod To A Blind Mule’ acaba funcionando como um registro de amizade tanto quanto um álbum. Cada participação parece carregar a responsabilidade de acrescentar algo sem apagar aquilo que veio antes.