Resenhas

Mayfield

Rusty Shackle

Avaliação

9.0

Rusty Shackle chega com seu aguardado novo álbum ‘Mayfield’, trazendo uma sonoridade cinematográfica, que vai agradar especialmente os fãs do estilo mais tradicional até os mais moderno do soft rock e folk. Abanda galesa combina folk, rock e indie em um trabalho marcado por energia, melodias fortes e uma sonoridade que reflete sua experiência nos palcos. A mistura entre folk, rock e indie volta a ocupar o centro da sonoridade do Rusty Shackle, em um som dinâmico e aconchegante e entrega uma performance densa e melódica em todas as 14 faixas do disco. O álbum prova a capacidade da banda de equilibrar emoção e energia, criando um registro coeso e dinâmico. Apontado pela equipe do grupo como o trabalho mais ambicioso de sua trajetória, o disco chega depois de anos de estrada e consolida características que acompanham o quarteto desde sua formação, em 2010: energia, melodias marcantes e o gosto por canções construídas a partir de histórias.

A produção de ‘Mayfield’ ficou a cargo de Todd Campbell, filho do saudoso Phil Campbell, ex-guitarrista do Motörhead. Sob sua produção, o novo trabalho é um lançamento de perfil contundente e carismático, mantendo a identidade de uma banda que construiu sua trajetória principalmente por meio das apresentações ao vivo. Esse histórico de estrada é uma das marcas mais importantes do Rusty Shackle. Conhecido por uma agenda intensa de shows, o grupo desenvolveu uma relação próxima com o público ao longo dos anos, passando por festivais, casas de espetáculo e apresentações em formatos mais intimistas.

Formado em 2010 no País de Gales, o Rusty Shackle construiu sua identidade musical a partir do encontro entre diferentes vertentes. O folk fornece a base melódica e narrativa, enquanto o rock acrescenta peso e energia. As influências do indie completam uma fórmula que procura equilibrar tradição e contemporaneidade. E a banda já prova isso na abertura com “Swandive”, um convite para o mundo magnífico, com linhas de violão acústico, guitarras e sons característicos do folk que entregam o clima épico e cinematográfico e dão início a essa viagem.

Abrindo espaço para riffs mais pesados e melódicos, com os vocais intensos na seguinte “Your Arrows”, já mostrando logo de cara para que a banda veio. A canção mantém o ritmo cadenciado e grave, emulando o som melancólico, mas pesado do folk rock. Uma faixa muito sentimental e com uma melodia que nos vicia e nos faz cantar como um hino!

Em “Callico” o tom acústico característico do rock continua, mas com aquele tempero do folk, com instrumentos característicos como a gaita, que chama atenção de forma discreta, mas profunda. Um ponto interessante é o detalhe de sentirmos como se fosse um LP de uma banda dos anos 90, que pegamos para ouvir. Os vocais trazem mais sentimentalismo, sendo possível sentir a emoção na voz. Sem dúvidas, é a faixa mais comercial do disco, perfeita para rádios, podendo se tornar um hino.

Seguimos com “Riders of the Purple Sage” que traz riffs mais densos e melódicos, onde é possível perceber a influência oldschool da banda no peso emocional, desta vez em uma mistura com folk metal e música folcórica, mas há um toque mais moderno, sendo perfeitamente uma banda nova que soube abraçar a modernidade e criar um ambiente moderno influenciado pelos pioneiros do estilo – a faixa perfeita para trilha sonora de filmes épicos.

Há muita técnica no som da banda, sendo notável em “Stand Up Tall”, uma canção que incorpora tanto a fragilidade quanto a resiliência presentes no coração do disco. Os clássicos riffs do rock alternativo, em tom acústicos é perfeitamente mostrado aqui – lembrando os clássicos acústico MTV dos anos 90 e 2000. Os vocais aqui ganham mais intensidade, trazendo aquele hino perfeito que faz o público cantar junto.

“Begin” nos é apresentada com aquela vibe de balada em volta da fogueira, com instrumental simples mas ardentes, em vocais penetrantes de uma faixa imersiva, comovente e a mais emotiva do álbum, mergulhando no terreno da introspecção noturna. A canção explode com uma base rítmica sólida e tom completamente acústico, peso e gostinho de interior, tornando-se a faixa perfeita para um show cheio com clima melódico.

“The Pearl and the Rainbow” continua a melancolia e riffs sinuosos que vem e voltam e convidam a todos para refletir. A faixa oferece uma pausa reflexiva no disco, com melancolia e sentimento que desabafam e mesmo que não entende a língua cantada, consegue sentir o peso da emoção. O grande diferencial do trabalho está no uso do violão, instrumento que ocupa o centro das composições e define a identidade sonora do álbum. Em vez de aparecer como um elemento ocasional, ele conduz os arranjos e imprime um caráter artesanal às músicas, aproximando o projeto das raízes do blues e da música folk, e chegando ao tom do grunge, garagem e souther rock.

Em “As the Crow Flies”, retorna com o folk de primeira linha e entrega riffs de guitarra memoráveis e vocais cheios de energia. Aqui sentimos também muita influência do rock dos anos 90, vocais que dão uma nova textura em uma tempestade sonora, mas mantendo a energia underground do grunge. A bateria segue o ritmo denso e potente, fervendo, com o baixo que marca forte presença e o clima denso, para criar um som mais acessível e memorável. “Unshakeable” entrega a faixa mais sentimental em sua sonoridade, com riffs densos e vocais cheios de paixão. Seguindo pela também sentimental e com mais soturna “Saturn’s Rings”, em que o clima ganha mais tempero do rock puro dos anos 90.

Preparando os ritos finais, “Switch” nos apresenta a vibe de jam de garagem, e nos surpreende pela versatilidade, efeitos vocais e instrumental denso que carrega forte energia nostálgica. Entregando  a brutalidade mas com riffs ritmicos e bem melódicos, é mais uma faixa que explode melancolia com tons sinuosos e densos, que arrastam o ouvinte em uma viagem agressiva mas com toda beleza que só o rock dos anos 90 consegue fazer, além de uma imensidão de um artista que souberam utilizar a técnica clássica mas incorporar tons modernos – é a faixa que mais gostei.

“Juniper (Whining of the Winds)” chega como uma balada suave que nos prepara para para encerrar com “Of Gallows & Galleries”  mantendo o som denso e sombrio, e a energia melódica e clássica que já é assinatura do  Rusty Shackle, enquanto o instrumental é impactante e abaixa o tom para se despedir, sendo a faixa mais forte. Esse álbum vem com um ritmo que nenhum fã do estilo poderá colocar defeito.

Com ‘Mayfield’, a banda apresenta um trabalho voltado aos fãs da música independente e de produções que valorizam autenticidade acima de grandes recursos de estúdio. A proposta combina composições de inspiração tradicional com uma estética contemporânea, explorando histórias pessoais e temas ligados ao cotidiano sob uma perspectiva intimista. Para quem acompanha a cena folk-rock britânica, ‘Mayfield’ representa, portanto, uma nova oportunidade de observar como uma banda acostumada à estrada transforma essa experiência em material de estúdio. O resultado é um disco que chega sustentado não apenas por sua proposta musical, mas também por uma trajetória construída ao longo de mais de uma década de trabalho.