Rusty Shackle chega com seu aguardado novo álbum ‘Mayfield’, trazendo uma sonoridade cinematográfica, que vai agradar especialmente os fãs do estilo mais tradicional até os mais moderno do soft rock e folk. Abanda galesa combina folk, rock e indie em um trabalho marcado por energia, melodias fortes e uma sonoridade que reflete sua experiência nos palcos. A mistura entre folk, rock e indie volta a ocupar o centro da sonoridade do Rusty Shackle, em um som dinâmico e aconchegante e entrega uma performance densa e melódica em todas as 14 faixas do disco. O álbum prova a capacidade da banda de equilibrar emoção e energia, criando um registro coeso e dinâmico. Apontado pela equipe do grupo como o trabalho mais ambicioso de sua trajetória, o disco chega depois de anos de estrada e consolida características que acompanham o quarteto desde sua formação, em 2010: energia, melodias marcantes e o gosto por canções construídas a partir de histórias.
A produção de ‘Mayfield’ ficou a cargo de Todd Campbell, filho do saudoso Phil Campbell, ex-guitarrista do Motörhead. Sob sua produção, o novo trabalho é um lançamento de perfil contundente e carismático, mantendo a identidade de uma banda que construiu sua trajetória principalmente por meio das apresentações ao vivo. Esse histórico de estrada é uma das marcas mais importantes do Rusty Shackle. Conhecido por uma agenda intensa de shows, o grupo desenvolveu uma relação próxima com o público ao longo dos anos, passando por festivais, casas de espetáculo e apresentações em formatos mais intimistas.
Formado em 2010 no País de Gales, o Rusty Shackle construiu sua identidade musical a partir do encontro entre diferentes vertentes. O folk fornece a base melódica e narrativa, enquanto o rock acrescenta peso e energia. As influências do indie completam uma fórmula que procura equilibrar tradição e contemporaneidade. E a banda já prova isso na abertura com “Swandive”, um convite para o mundo magnífico, com linhas de violão acústico, guitarras e sons característicos do folk que entregam o clima épico e cinematográfico e dão início a essa viagem.
Abrindo espaço para riffs mais pesados e melódicos, com os vocais intensos na seguinte “Your Arrows”, já mostrando logo de cara para que a banda veio. A canção mantém o ritmo cadenciado e grave, emulando o som melancólico, mas pesado do folk rock. Uma faixa muito sentimental e com uma melodia que nos vicia e nos faz cantar como um hino!
Em “Callico” o tom acústico característico do rock continua, mas com aquele tempero do folk, com instrumentos característicos como a gaita, que chama atenção de forma discreta, mas profunda. Um ponto interessante é o detalhe de sentirmos como se fosse um LP de uma banda dos anos 90, que pegamos para ouvir. Os vocais trazem mais sentimentalismo, sendo possível sentir a emoção na voz. Sem dúvidas, é a faixa mais comercial do disco, perfeita para rádios, podendo se tornar um hino.
Seguimos com “Riders of the Purple Sage” que traz riffs mais densos e melódicos, onde é possível perceber a influência oldschool da banda no peso emocional, desta vez em uma mistura com folk metal e música folcórica, mas há um toque mais moderno, sendo perfeitamente uma banda nova que soube abraçar a modernidade e criar um ambiente moderno influenciado pelos pioneiros do estilo – a faixa perfeita para trilha sonora de filmes épicos.
Há muita técnica no som da banda, sendo notável em “Stand Up Tall”, uma canção que incorpora tanto a fragilidade quanto a resiliência presentes no coração do disco. Os clássicos riffs do rock alternativo, em tom acústicos é perfeitamente mostrado aqui – lembrando os clássicos acústico MTV dos anos 90 e 2000. Os vocais aqui ganham mais intensidade, trazendo aquele hino perfeito que faz o público cantar junto.
“Begin” nos é apresentada com aquela vibe de balada em volta da fogueira, com instrumental simples mas ardentes, em vocais penetrantes de uma faixa imersiva, comovente e a mais emotiva do álbum, mergulhando no terreno da introspecção noturna. A canção explode com uma base rítmica sólida e tom completamente acústico, peso e gostinho de interior, tornando-se a faixa perfeita para um show cheio com clima melódico.
“The Pearl and the Rainbow” continua a melancolia e riffs sinuosos que vem e voltam e convidam a todos para refletir. A faixa oferece uma pausa reflexiva no disco, com melancolia e sentimento que desabafam e mesmo que não entende a língua cantada, consegue sentir o peso da emoção. O grande diferencial do trabalho está no uso do violão, instrumento que ocupa o centro das composições e define a identidade sonora do álbum. Em vez de aparecer como um elemento ocasional, ele conduz os arranjos e imprime um caráter artesanal às músicas, aproximando o projeto das raízes do blues e da música folk, e chegando ao tom do grunge, garagem e souther rock.
Em “As the Crow Flies”, retorna com o folk de primeira linha e entrega riffs de guitarra memoráveis e vocais cheios de energia. Aqui sentimos também muita influência do rock dos anos 90, vocais que dão uma nova textura em uma tempestade sonora, mas mantendo a energia underground do grunge. A bateria segue o ritmo denso e potente, fervendo, com o baixo que marca forte presença e o clima denso, para criar um som mais acessível e memorável. “Unshakeable” entrega a faixa mais sentimental em sua sonoridade, com riffs densos e vocais cheios de paixão. Seguindo pela também sentimental e com mais soturna “Saturn’s Rings”, em que o clima ganha mais tempero do rock puro dos anos 90.
Preparando os ritos finais, “Switch” nos apresenta a vibe de jam de garagem, e nos surpreende pela versatilidade, efeitos vocais e instrumental denso que carrega forte energia nostálgica. Entregando a brutalidade mas com riffs ritmicos e bem melódicos, é mais uma faixa que explode melancolia com tons sinuosos e densos, que arrastam o ouvinte em uma viagem agressiva mas com toda beleza que só o rock dos anos 90 consegue fazer, além de uma imensidão de um artista que souberam utilizar a técnica clássica mas incorporar tons modernos – é a faixa que mais gostei.
“Juniper (Whining of the Winds)” chega como uma balada suave que nos prepara para para encerrar com “Of Gallows & Galleries” mantendo o som denso e sombrio, e a energia melódica e clássica que já é assinatura do Rusty Shackle, enquanto o instrumental é impactante e abaixa o tom para se despedir, sendo a faixa mais forte. Esse álbum vem com um ritmo que nenhum fã do estilo poderá colocar defeito.
Com ‘Mayfield’, a banda apresenta um trabalho voltado aos fãs da música independente e de produções que valorizam autenticidade acima de grandes recursos de estúdio. A proposta combina composições de inspiração tradicional com uma estética contemporânea, explorando histórias pessoais e temas ligados ao cotidiano sob uma perspectiva intimista. Para quem acompanha a cena folk-rock britânica, ‘Mayfield’ representa, portanto, uma nova oportunidade de observar como uma banda acostumada à estrada transforma essa experiência em material de estúdio. O resultado é um disco que chega sustentado não apenas por sua proposta musical, mas também por uma trajetória construída ao longo de mais de uma década de trabalho.